Do luto à luta: não reconheço governo golpista!

Autora: Maria Isabel Trivilin

CiQ7EgOUYAQB1XzHoje o tempo nublado caracteriza com clareza os sentimentos que pairam no país. Confesso que ainda tinha um pingo de esperança nessa nação perturbada, mas realmente, aos 18 anos de idade, no auge de minha jovem militância, estou presenciando um golpe.

Sinto algo ainda mais forte do que senti naquele dia em Brasília, quando o processo foi aprovado na Câmara dos Deputados. Ver trabalhadores chorando em frente ao Palácio do Planalto não passa perto do caos do momento. Feriram de vez a democracia, o voto de mais de cinquenta milhões de pessoas que foram às urnas no dia 5 de outubro de 2015 e elegeram democraticamente uma presidenta – aliás, a primeira mulher a presidir o idolatrado pau-brasil.

Constatamos um golpe de estado contra toda a classe trabalhadora, sofrida, que há 14 anos usufrui de políticas públicas que, incontestavelmente, transformaram, através de reformas populares, o curso forçado das águas mercantis, levando pão a mesa dos pobres, trazendo os negros e periféricos para as universidades e dando-os acesso à saúde e à uma vida mais digna. Hoje, esse ciclo 13+1 se encerra, com o pesar de inúmeros brasileiros que temiam por Temer, temiam por observar a democracia caminhando ao abismo juntamente com toda a nossa luta, sem que pudéssemos reagir à altura. Notando que, estamos novamente adentrando um período dominado por fascistas, machistas, racistas e tirânicos engravatados.

Tentaram, insistiram e conseguiram usurpar o digno direito de uma mulher governar a nação. Uma mulher que teve sua vida exposta, que foi torturada durante a ditadura militar e que não baixou a guarda – também não baixaremos. Apesar de todas as falhas de seu governo, que indico inúmeras críticas, nenhum ser ressentido, que não sabe lidar com as frustrações da perda ou com a decoração de sua posição tinha o direito de tirá-la de onde o povo a colocou. Pedaladas fiscais não são motivos para um impeachment e todos os imundos daquele tribunal sabem disso. Não tendo crime de responsabilidade, é golpe! É golpe de novo, meu povo!

Hoje a dor não é só por terem ferido a democracia, a constituição e o voto do povo suado das ruas brasileiras, mas por notar mais uma mulher sendo injustiçada, rebaixada, tendo todas as suas forças violadas por truculentos seres que não conseguem lidar com a ideia de que a população avança, que há pobre na universidade e na fila do pão; tiranos que não conseguem ver uma mulher empoderada, discursando um texto que ficará para a história, assim como toda a sua luta e garra; por homens que não conseguem ver a classe trabalhadora com direitos, que não enxergam as belezas que produzimos e não nos tratam com humanidade.

A dor está em cada pétala de rosa que caiu sobre o chão naquele 30 de abril, naquela chacina criada por um apoiador de Temer nas ruas do Paraná. A dor está naquela mata em que dois companheiros do MST foram mortos por estarem lutando pela terra. A dor está por Jadson José, estudante de negro e da periferia, que foi morto pela polícia militar. A dor está em saber que isso será cada vez mais comum e que agora terão caminho aberto para aniquilarem nossos sonhos, matarem nossas almas e venderem nossos espíritos. A dor está em saber que agora serei ainda mais produto, menos gente; ainda mais mercado, mais identificada por um código de barras inamovível e morto. Agora o caminho se alongou para aquela sociedade que eu tanto luto: mais humana, igualitária, sem 1% possuindo toda a riqueza dos 99%. Agora a luta de classes será brutal, companheiros. A classe oprimida terá que se unificar ou será morta de novo, como em 1964.

Minha tristeza é por todo trabalhador que hoje levanta a bandeira do golpe com glória, pela grande massa alienada que não faz ideia que a ponte resulta em um precipício. É triste ver jovens felizes com o que nos foi atribuído, fechando os olhos para a parcialidade que reina nos três poderes. Entretanto, meus olhos lacrimejados não neutralizam a força de minha luta, a lamentação não transformará a realidade. É preciso permutar o luto por luta. Agora ou perdemos a paciência ou perderemos a vida. A calmaria acabou, a lei da mordaça avança, juntamente com todas de natureza elitista e conservadora.

Declaro guerra aos golpistas! Enquanto houver um rico ceifando a vida de um pobre, enquanto uma classe minoritária possuir toda a riqueza de um povo, enquanto houver jovens morrendo pela política militar, uma mídia manipuladora, tentativas de mercantilizar o ensino e todas as nossas forças vitais, haverá luta, resistência e muitas percas de paciência.

É com pesar que encaro a morte da jovem democracia. Assim como o jovem Jadson José, ela foi morta pela polícia militar. Morta pela mídia golpista, por essa lógica elitista cruel e pelos fascistas que agora estão no poder. Eu não reconheço esse governo, ele não é legitimado pelo povo!

A juventude da classe trabalhadora resiste! Fora, Temer!!!

Resisto!

Autora: Maria Isabel Trivilin

carambaNoixHoje me surpreendi com a vida – na verdade, com a falta dela. Era uma manhã cinzenta, fria e nublada, anunciando que a semana traria verdades. Saí de casa, peguei o ônibus e cheguei ao destino.

Comecei a conversar com seres que, normalmente, fazem minha barriga doer de tanto sorrir, costumam florir meus dias. No entanto, apesar de serem extremamente bons de coração e alma, não entendem claramente minha luta, tive a prova que estão ainda presos nas amarras do pobre casulo que eu tanto desdenho.

Quando cheguei em casa, resolvi pontuar o que achava que neles faltava, pois normalmente os defeitos que enxergamos nos outros são apenas reflexos de nosso interior, os que estão em nós. Conclui que falta coragem, sensibilidade, falta abrir a mente e deixar a luz entrar. Falta sair da caverna, da sala, daquela universidade burocrática e injusta.

Falta lembrar que há gente morrendo enquanto escrevo esse singelo texto, pessoas sendo violentadas por terem nascido com orientação sexual, raça, gênero, condição diferente. Gente morrendo de fome, por um sistema cruento que concentra a renda nas mãos de uma classe minoritária asquerosa. Gente se suicidando por não aguentar a própria existência (sem vivência), por não aguentar as cobranças de um modelo falido e desumano. Pessoas enlouquecendo por não tirarem notas suficientes para passar em uma prova que taxa sua inteligência, capacidade e que decide o seu futuro e sórdido destino.

Há gênios morrendo por se acharem asnos e estúpidos governando nações. Há algo de muito errado nesse mundo. Agora me pergunto, será que é bom enxergar tanto, ter ciência dessas barbáries? Aqui cabe aquela frase que li no outdoor em Niterói: “A ignorância é quase que uma dádiva”. Continuo me perguntando, sem entender o sentido de tudo. Talvez minha luta uma hora me traga paz e esclareça que não há dádiva maior que viver com consciência, liberdade e igualdade. Enquanto isso, persisto, insisto e continuo falando até que todos entendam, se cansem ou me expulsem.

Não é fácil ler o mundo de outra forma, enxergar além do que os olhos capacitam. Talvez não fizesse tão sentido se fosse fácil, eis então o desafio: resistir e tentar esclarecer às pessoas a beleza de um outro mundo mais humano, arteiro, poético e concernente aos nossos anseios.

 

Sublime arco-celeste

Autora: Maria Isabel Trivilin

hahahaVoltando para casa num dia de intensa névoa e tristeza, avistei um arco-íris. Sendo uma das coisas mais lindas e mágicas que eu já vi, cá estou eu para falar um pouco dele.

Quando os raios solares se encontram ante às mais belas gotas de chuva, surgem as lindas faixas cintilantes. É muito mais que apenas a separação da luz solar em seu espectro contínuo, trata-se de trazer luz à sobra, paz à escuridão. Uma nova forma – tão digna como todas as outras – de proclamar o amor, difundi-lo, evidenciando que sua força ultrapassa tabus e preconceitos.

Um arco-íris humano que traz em cada feixe de luz, um rosto novo, forte, agraciado de luta; traz em cada cor, um beijo doce em detrimento ao pranto. É revoltante pensar que ainda há gente que desrespeita o imenso arco-celeste luminoso. Mas ora, há em si sua lógica, é compreensível… Na plenitude deste mundo preto e branco, deve incomodar tanta coloração de afeto, não é? Em meio a esta área sombria que, apesar das magníficas riquezas naturais, continua exalando trevas em forma de gente preconceituosa e cruel, é natural que se incomodem com tanto brilho.

Triste realidade, bruta e cruel falta de humanidade – que esclareço, porém, não fazer parte. Essa luta também é minha, apesar de eu não ter nascido com a especial purpurina. Força na luta, gente bonita! Beijem e continuem transbordando amor, não ódio. E para os supostos religiosos, orem por si próprios, para que parem de julgar uma realidade que não conversa com a sua. Respeitem e aprendam a amar o próximo, tal qual Jesus fez. Para os que seguem à risca a Bíblia, comecem a seguir bons preceitos: “(…) és indesculpável, ó homem, sejas quem for, quando julgas, porque a ti mesmo te condenas em tudo aquilo que julgas no teu semelhante”, extinguindo a linha de apontar erros pecaminosos por uma condição que vocês não possuem, nem entendem. Precisamos de mais humanidade, irmãos fiéis da igreja! Pecado é matar, torturar, violentar e humilhar, o resto não cabe a vocês, meros pecadores mortais.

Aos gays, lésbicas, bissexuais e transsexuais, todo o respeito do mundo. Continuem colorindo o mundo, que a liberdade de vossos corações e almas não se intimidem com essa infeliz onda de opressão. Aos heterossexuais que utilizam a violência como meio de defender sua crença, repensem suas sórdidas atitudes e aprendam a colorir também, talvez com o pincel mais importante para um principiante: aquele verde, que me remete respeito, amor, igualdade e esperança por dias melhores.

Enquanto pessoas estiverem morrendo – de carne ou espírito – por possuírem uma orientação sexual ou identidade de gênero diferente da típica “normalidade”, haverá luta. A revolução será colorida ou não será!

 

17 de maio – Dia Internacional de Combate a LGBTfobia.

 

 

Uma imagem e mil palavras

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Vejo flores em você

Autor: Matheus Gabriel

floresssQuando penso em você, é inevitável não pensar em flores. Digo, mais do que isso, penso em um campo de flores. Flores que bailam ante o mais sutil sopro dos deuses. Bailam de um lado ao outro, em perfeita harmonia. Flores que não são belas apenas em campos, mas em buquês, orlas e cânticos. Buquês que não falam, mas perfumam.

Flores são bonitas em quaisquer circunstâncias, seja na boca do dançarino de tango ou no quintal de Dona Maria – que vê o momento de regá-las como o mais feliz do dia. Mas, o que mais me faz crer que és uma flor, é saber que, como reza a lenga, é necessário um dom especial para cultivá-las.

 

 

Trabalhadores, bom dia de luta!

Autora: Maria Isabel Trivilin.

trabalhador.jpgPor muito tempo vi minha mãe sair às sete da manhã e chegar às sete da noite. Durante toda a minha infância, lembro-me de vê-la apenas antes de dormir e nos fins de semana – um fim de semana que se restringia ao domingo. Lembro-me de cobrar sua presença, de cobrar que levasse eu e minha irmã para passear e de questioná-la o porquê de trabalhar tanto. Antes eu não compreendia, mas hoje os passos forçados de minha mãe em direção ao trabalho me fazem querer lutar ainda mais. Como ela iria nos levar a sorveteria se chegava quase morta de cansaço em casa? Como poderia estar em todas as apresentações e reuniões de escola, se trabalhava dez horas por dia? Hoje, tudo isso me faz enxergar a importância do dia do trabalhador.

Essa é a realidade de milhares de brasileiros, de filhos, pais e parentes que se distanciam por não possuírem tempo para um chá da tarde ou para jogar uma conversa fora após o almoço. Desde àquela primeira manifestação trabalhista em Chicago até a última ocorrida em Curitiba, tratamos o dia de hoje como uma comemoração por todos os direitos já conquistados. Entretanto, com a conjuntura atual e a tristeza que nos circunda, não vejo muitos motivos para comemorar, não sinto o aroma de felicidade no ar.

Há um abatimento pairando sobre as esbranquiçadas espumas, que no âmago dos fortes, vem à tona em forma de luta, de exaltação da necessidade da unificação dos trabalhadores, a fim de reconquistarem de fato seus direitos e assegurarem que os outros não lhe sejam tirados. Por ser um dia diferente, não desejo-lhes um “feliz dia do trabalhador”, mas felicito-lhes pelo dia de luta trabalhista.

Meu cumprimento, para colocar em evidência, é destinado aos trabalhadores de verdade, não àqueles que saem de sua confortável casa para humilhar e desrespeitar funcionários em suas imensas indústrias de opressão, àqueles que exploram o proletariado para encher os bolsos e os cofres escondidos por atrás dos quadros de Dalí.

Desejo um dia de luta para os homens que trabalham sob o sol escaldante para conseguir míseras moedas e alguns litros de leite. Desejo força aos trabalhadores de fibra, que saem de casa as cinco, seis, sete horas da manhã para alimentar sua família, trazer o pão nosso de cada dia. Aqueles que não nasceram em berço adornado por pétalas de ouro e precisam batalhar por uma vida mais digna e pela garantia de um futuro melhor para seus filhos. Felicito as donas de casa, que exercem um trabalho esgotante, contínuo, sem feriados e férias – que ainda não é valorizado. Felicito as empregadas domésticas, que trabalham duramente e ainda precisam ouvir que seu trabalho não é digno ou é motivo de vergonha. A vocês, que dedicam todos os seus suspiros em empregos nas ruas das metrópoles e nas roças das cidadezinhas do interior: um bom dia de luta. Vocês são realmente dignos de todo o respeito e admiração.

Um bom dia aos protagonistas – sem evidência e status – desse sistema, os grandes responsáveis pela produção do país. Mais do que um bom dia de luta aos trabalhadores, desejo do fundo de minha alma, que um dia vocês possam trabalhar menos, que não precisem deixar seus filhos em casa, privando-se de vê-lo dar o primeiro passo e ensiná-lo como é a vida e como ela deve ser vivida, para encher o bolso de um patrão. Espero que um dia não tenham que dedicar toda a sua existência ao trabalho, pois a vida é muito mais ampla que um muro alto enferrujado. Espero que deixem de apenas sobreviver, que possam viajar, aproveitar os prazer gratuitos da vida e ver o pôr do sol no fim das tardes. Espero que um dia tenham tempo para sair, conversar, reencontrar os amigos, dividir os sorrisos e observar a linda vista que nos cerca. Espero que um dia consigam colocar essa burguesia nojenta no chinelo, para que possam ser vistos como seres pensantes e que sejam valorizados tal qual seus valores humanos, não financeiros. Espero que um dia possam morrer com a consciência tranquila que viveram – com dignidade, direitos e igualdade. Espero que se unam contra essa linha prepotente e cruel, para que passem por aqui e na hora de partir, notem que não serviram somente para trabalhar, suar, adoecer e morrer, sem mesmo viver.

“Que as classes dominantes tremam à ideia de uma revolução. Proletários de todo o mundo, uni-vos!”

TEMER JAMAIS!

Autora: Maria Isabel Trivilin

12998696_976595089083182_4555081510032254438_n.jpgUma jovem que precisa estudar para as disciplinas curriculares e a medonha prova do vestibular. Sem tempo algum para passear no parque e dormir uma tarde toda, sem condições de abandonar a rotina e fazer a diferença no mundo… Foi o que me disseram, mas como não penso apenas em minha existência, no “teste de aptidão” ridículo do fim do ano e no anseio de mostrar ao mundo superficial que conseguirei uma boa vaga, deixo os afazeres de lado e sigo para enfrentar mais uma batalha.

Após mais de mil e duzentos quilômetros, vinte e quatro horas de viagem, num fim de tarde ensolarado o bastante para fritar coxinhas no asfalto, estamos novamente na Capital Federal. Quando chego, logo me surpreendo com a quantidade de gente consciente, como a gente, disposta a lutar a favor da democracia e de um mundo em que sejam respeitados os mecanismos de voz da população da classe baixa, de periferia e pertencente aos grupos que ainda estão a margem da sociedade.

Os cartazes e frases expostos nos beirais das tendas e amarrados nas árvores frutíferas, me inspiraram. A quantidade de belos seres, vestindo aquele manto bonito, floresciam em meu jardim rubentes rosas que me lembravam a luta – não o luto. A primeira manifestação foi linda, uma passeata de mais de três quilômetros em direção ao Congresso Nacional. Apenas um aperitivo, um recado aos brasileiros: não terá golpe, está tendo luta.

Aquele primeiro momento já encheu meu íntimo de boas vibrações. As preocupações com os trabalhos que deixei nos Campos se foram sem um estralar de dedos. Eu estava participando de um momento histórico, não assistindo tudo do sofá da sala, pela visão distorcida do canal da família Marinho, não estava sendo manipulada e tinha certeza das informações, pois eu estava as vivenciando. Estava lá, lutando, sem banheiro limpo, sem o conforto de minha cama – aliás, o desconforto de uma barraca menor que os metros de minhas pernas. Sem tomar banho, por falta de local para tal, o cansaço me venceu, dormi.

O sol nasceu e com ele o grande dia: 17 de abril de 2016. Eu estava apreensiva, não sabia o que ocorreria, mas o que menos passava por minha mente era a aceitação do processo, confesso – eu e meu santo problema de ter ainda fé nas pessoas, em seus caracteres e bons sensos. Logo de manhã fomos a plenária, discutimos, nos fortalecemos e nos fardamos com os estímulos necessários para barrar o golpe.

O sol tentava esgotar nossas forças a medida que uma garrafa de água secava. No típico horário do arroz e feijão, tudo começaria. Meio dia, jovens revolucionários na tenda da União Nacional dos Estudantes. Tudo pronto, todos engajados e dispostos a correr alguns riscos em nome da democracia e da luta legítima, digna e justa que nos envolvia.

Cinco quilômetros de caminhada, trincas de fileiras fardadas e bem armadas com cassetetes e armas de fogo – não de palha. A caminhada foi longa, mas enriquecedora e prazerosa. Nas ruas, milhares de pessoas vermelhas e amarelas marchando, cantando e clamando por justiça. Lá estavam representantes reais dos brasileiros, gente trabalhadora, honesta, favelada, preta e linda. Lá estavam os trabalhadores rurais, sem terra, sem teto, sem medo. Quilombolas, kizombolas, índios e nativos de uma terra que carece de melhores germinadores.

Após a passeata, chegamos ao nosso destino. Exaustos, mas ainda com anseio e vontade de lutar: a comprovação disso estava nos olhos, eles brilhavam. Depois de algumas horas, em telões presentes na praça da esplanada dos ministérios, o show de horrores começou. Uma multidão sentada no quente asfalto brasiliense, esperava com aflição e euforia o resultado. Os senhores que nos deveriam representar, representar nossas famílias, crianças e jovens, se esqueceram de suas responsabilidades e resolveram rasgar verbalmente a constituição perante todos.

Os votos dos deputados em nome de suas PRÓPRIAS famílias evidenciaram o descaso e afronto a toda a população que se desvincula de suas árvores genealógicas. Evidenciaram a falta de ordenação impessoal na política, o que Sérgio Buarque já dizia em 1936, quando caracteriza um funcionário patrimonial como sendo um sujeito que mais se preocupa com suas próprias ambições e objetivos particulares, do que com as demandas e necessidades dos cidadãos.

Havia também alguns que falavam em nome de Deus, de forma completamente incoerente e insensata, já que a religião não deveria influenciar suas decisões enquanto parlamentares. A estes, tenho uma revelação a fazer: O ESTADO É LAICO, IRMÃOS! Se ainda não entendem isso, é compreensível que não consigam fundamentar um pedido e justificar coerentemente seus votos.

Mas eles não são os grandes culpados. Eles não querem ser políticos, querem enriquecer rapidamente e viram na política uma forma de fazê-lo. Não estão dispostos a governar pelo povo, não possuem conhecimento para isso e nem se dão ao trabalho de formular uma fala enganosa para tentar convencer alguém. Nós somos os reais culpados! Que tipo de deputado estamos elegendo? Os palermas nem se esforçam, apenas utilizam o nome de seus filhos e netos e a exaltação de seus quase dez mandatos para afrontar a democracia.

Para elevar ainda mais o nível, um certo ser – que ser humano não é – resolveu citar o nome de um coronel ditador. Jair Bolsonaro “mitando” de novo, envergonhando uma nação e colocando à prova o senso de “humanidade” de cada um. Sua fala se afasta da política e do momento em questão, é caso de internação, remédios à la tarja preta da mais preta que há. O senhor deputado – racista, fascista, homofóbico e preconceituoso, defensor da ditadura militar e da morte de “bandidos”, como se tivesse poder para julgar alguém – vota em homenagem ao coronel Ustra, o primeiro militar do regime a ser considerado, pela justiça, como torturador. O mesmo que torturou a presidenta em questão e tinha a prática de colocar ratos vivos nas vaginas das mulheres. Como pode um crápula deste defender um torturador em rede nacional e continuar impune? Como pode ainda ter seguidores, homens e mulheres votando a seu favor? É incompreensível, preocupante.

Para mais fundo, na beira do caldeirão de vermes, está um dos guias principais do processo ridículo e antidemocrático: o senhor presidente da câmara dos deputados, Eduardo Cunha, evangélico, crente, membro da igreja Assembléia de Deus e metido a político. Que conduz um processo alegando ser contra a corrupção, enquanto responde por mais de vinte processos de mesma ordem. É desta forma que o brasileiro pretende combater a corrupção, aliando-se a um corrupto de marca maior? Colocando no poder um salafrário, nojento, que gasta milhões no exterior em lojas de grife, restaurantes e hotéis cinco estrelas com o dinheiro público? Como pode um ser deste ainda estar na presidência na câmara defendendo um processo de impeachment? Mais um fato incompreensível, face da sociedade medíocre e hipócrita que vivemos.

Minhas indagações não param: como pode passar um processo de cassação que nem possui um crime de responsabilidade? Como podem se achar no direito de ferir o voto da população, tentando – através de pedaladas fiscais, que não são motivos suficientes para um possível impeachment – tirar do poder uma mulher, presidenta, que foi eleita democraticamente pelo povo? Isso não é democracia, irmãos, é golpe! Senhores pastores da bancada evangélica, isso não é justiça, seu Deus não prega isso.

Confesso que doeu na alma observar mulheres (inclusive mulheres negras), das poucas que tinham, votando a favor dessa barbaridade, que se efetuada, só trará regressos aos direitos das minorias. Felizmente haviam alguns deputados decentes, políticos íntegros que lideram pelo povo e, em alto e bom som, proclamaram o bonito “NÃO”, mesmo com toda a pressão dos calhordas que tentavam os calar.

Maria do Rosário – maravilhosa, como sempre –, Jean Wyllys e Jandira Feghali trouxeram esperança ao parlamento. O problema é que estavam em menor número, os crápulas conseguiram mais votos e avançaram na tentativa de golpe. Isso não significa, no entanto, que venceram a batalha, o golpe não passará, será combatido nas ruas, nas praças e nos espaços de formação de consciência.

Aquela votação foi um dos momentos mais tensos e emocionantes que já vivi, junto com a aflição daquelas horas intermináveis, comecei a observar o que me cercava, enquanto o sujo PSDBista se pronunciava. Em meio a tudo, ninguém deixava de vibrar, torcer e comemorar com os votos favoráveis. Ver um vendedor ambulante, sentado sobre uma caixa de isopor – que aliás, é o sustento de sua família – gritando: “democracia socialista”, encheu meu coração de coragem. O brilho contido nos olhos daquela gente sofrida, daqueles homens suados, judiados pelo sol e trabalho nas ruas, resumem a minha luta e o porquê de minha presença nesses espaços… O motivo de deixar a minha simpática casa para enfrentar um acampamento, que apesar de ser um dos ambientes mais solidários em que convivi, falta no conforto e na facilidade das ações rotineiras.

A dor da perda daquela votação se intensificou após tais observações. Doeu olhar ao redor e ver gente honesta lamentando pela injustiça e pelo medo do que aconteceria caso os imundos se empossassem. Foi triste ver gente que presenciou o golpe de 1964, temendo pela possibilidade de repetição da triste data.

Essa dor é minha, é sua, pertence a todos. É pesar nosso, não há como negar. Espero que após o circo apresentado, todos tenham enxergado a falta de integridade e preparo dos supostos “representantes”. Tenham entendido que, precisamos urgentemente de escolas, não as de muro alto e lajota opressora, mas àquelas da vida, que regem dignamente a existência e o motivo de estarmos aqui. Precisamos formar nosso povo, para que não votem em crápulas como aqueles, que desrespeitam a população e, se forem mais empoderados, tirarão muitos pães das mesas das famílias e muitos direitos populares já assegurados, aumentando a desigualdade social e os problemas que dela provém.

Já não basta trocarmos nossa vitalidade por dinheiro e sobrevivência? Não basta entregarmos a vida a um sistema que suga até nossos últimos suspiros enérgicos, precisamos ainda nos submeter às vontades e atrocidades desses ineptos?  Carecemos de uma nova cultura política, de formadores de opinião e seres mais humanos.

Aqueles homens e mulheres experientes, que tem muito o que contar sobre essa história lamentável, resumem a desigualdade provocada pelo capital financeiro e o meu sentimento de gratidão e emoção por notar que ainda temos força para lutar por uma realidade melhor. Aqueles trabalhadores, povo colorido, rico, diverso, que admiro até o último dedo, resumem o meu Brasil e a minha luta por uma sociedade igualitária, cheia de vida e livre de golpes, preconceitos e injustiças sociais.

Por fim, aos sujeitos que provocaram tudo isso, não desejo-lhes o mal (já são a representação clara disso), nem uma passagem para o inferno – pois nem o inferno os merecem – ou para o local da primeira sílaba do sobrenome do pilantra denominado “Eduardo”, esse lugar é bom demais para vocês. Apenas tenho pena, pois não terão muito tempo de comemoração, já que uma coisa é ter votos num congresso recheado de corruptos e outra é garantir votos nas urnas. Nada calará a voz do povo, continuaremos em luta e barraremos o golpe nas ruas!

NÃO TERÁ GOLPE DE NOVO, REAGE, REAGE MEU POVO!

Um massacre, duas sementes


Autora:
 Maria Isabel Trivilin

3Um chamado de incêndio. Os trabalhadores correm desesperados para apagar o fogo. Quando chegam, são surpreendidos: a chama é outra. Policiais e seguranças desenfardados na entrada do singelo e potente acampamento. É uma emboscada, tiros, matança:

– POW, POW… Sangue.

Os corações disparam, eles correm. Os menos fugazes são atingidos pelas costas (que confronto, não?). Dois homens, lavradores, pais de família, se vão.

Após o trágico ato, vindo de poderosos e cruentos pistoleiros, venho a repensar as causas e motivos de minha luta. Talvez eu ainda não tivesse ciência da crueldade vinda do outro lado, de quão perigoso é atualmente lutar pelo direito dos pobres, dos menos abastados por riquezas mundanas – apesar de suas almas serem florescidas por ouro.

O grau de truculência alcançou um patamar que não se mede. Mais um massacre, dois mortos e sete feridos em parte do Centro-Sul Paranaense. Sem combate, sem briga, sem motivos. Aliás, na sórdida visão deles, há um: trabalhadores lutando por direitos básicos, à terra, à comida e à existência de sua família. Trabalhadores que, diferente do que pensam, não invadem e roubam o território alheio, apenas ocupam terras infecundas e improdutivas que não estão sendo utilizadas.

Agora vejo muito além do que os olhos alcançam: pessoas pacíficas, hospitaleiras, que apenas buscam melhores condições de vida e o conforto de sua família estão morrendo em nome do capital. Estão morrendo pela vontade dos senhores empresários da Araupel, que não cedem nem mesmo aquele pedaço de chão que não utilizam. Um povo simples – simplicidade encantadora, “o último degrau da sabedoria” – organizado, que apesar da pouca formação, são donos de uma inteligência que certamente nenhuma escola ensina. São fortes, unidos e conscientes, pessoas que não aceitam as injustiças do atual sistema e se dispõem até mesmo a morrer na luta por seus direitos.

Após o acontecimento, enaltecem novamente sua força transformando toda a dor e sofrimento em mais motivação e anseio por justiça: organizam na praça São Pedro de Quedas, um lindo ato contra a violência, em solidariedade às famílias das vítimas e pela reforma agrária.

Chegando ao local, me deparo com vários caixões estendidos e bandeiras que ilustravam a insatisfação de todo o povo. A mística, que emocionou toda aquela gente ferida, estendeu sobre os caixões as sementes dos seres que os vestiam e uma entristecida flor do campo. Os nomes e idades eram pronunciados a cada grão posto, não só como marca de luto, mas para esclarecer que as sementes iriam germinar, que o objetivo dos miseráveis seres, que são dignos apenas de pena – liderados, por óbvio, pelo inimigo ímpar dos trabalhadores paranaenses, senhor Beto Richa – falhou.

Em solidariedade às famílias e amigos dos guerreiros executados, deputados, senadores, representantes políticos e religiosos e trabalhadores de bem se manifestaram contra a ação trágica e desumana, e a versão mentirosa difundida pela mídia, além de sua capacidade de manipular a população, a fazendo crer que a violência está no próprio Movimento Sem Terra. Foram clamados naquele pequeno espaço, os sentimentos de revolta, indignação e apoio aos companheiros de um movimento que engrandeceu de admiração a alma de todos que lá estavam – que nem de longe utiliza a violência, mas a paz.

Por fim, se acharam que aqueles projéteis nos matariam – sim, me incluo nessa luta – estavam enganados. De fato atingiram fisicamente Vilmar e Leonir – tirando deles o direito de lutar aqui e levando para os céus seus espíritos revolucionários – também suas famílias, a mulher grávida de nove meses que viúva ficou e, a outra senhora que ele, com três filhos deixou.

A bala está ainda alojada nos corações de todos que partilham dessa luta contra a criminalização e banalização dos movimentos sociais, por uma melhor distribuição de terras e de direitos – trazendo o pobre, o sem terra, o trabalhador do bar da esquina e o jovem da periferia para o centro da sociedade igualitária que buscamos. Mas reafirmo, essa bala não nos matou, não tirou nossa vitalidade e vigor. As sementes estendidas por toda aquela praça, por todo o solo fecundo do âmago de cada ser, brotaram, renasceram e permanecem em luta.

O encontro naquela ensolarada tarde triste de sábado, não foi para alastrar o ódio e rancor, mas para pacificamente gritarmos ao mundo que batalharemos pela justiça da morte de nossos irmãos. Que não aceitaremos as injustiças sociais e o golpe e que, lutaremos para que “nenhuma família fique sem teto, nenhum camponês sem terra e nenhum trabalhador sem direitos”.

Vilmar Bordin, Leonir Orback e todos nós: PRESENTES, AGORA E SEMPRE!

“Pelas mortes, nenhum minuto de silêncio, mas toda uma vida de luta!”

Lembranças

Eu olho para o horizonte                                                                                                                                                E o que vejo?                                                                                                                                                               Nada, apenas lembranças…                                                                                                                                       Lembranças felizes?                                                                                                                                                       Lembranças tristes?                                                                                                                                                       Apenas lembranças…                                                                                                                                                 Às vezes, quero esquecê-las                                                                                                                                       Por vezes, quero guardá-las                                                                                                                                   São lembranças…                                                                                                                                                           Algumas vão                                                                                                                                                                 Outras ficam                                                                                                                                                                 Mas no final…                                                                                                                                                               As lembranças são como lágrimas da chuva

 – Leonardo Cassanha.

Quinze anos de luta!

Autora: Maria Isabel Trivilin


fsmmmMeu dia começou bem, acordei e logo me voltei à janela de meu quarto, a fim de observar a paisagem e tentar capturar mais uma rotineira história. Ao longe, enxerguei a personagem principal: uma moça alta, de cabelos longos e loiros. Estava olhando para o nada, sorrindo num compartilhamento agradável com a contínua brisa do vale.

Os raios solares ajudavam a colorir seu pálido rosto e, com isso, eu conseguia enxergar com clareza seu semblante entusiasmado. Retirou da mochila um caderno de anotações – bem parecido com o meu, aliás – e começou a transpor em folhas de papel palavras que me pareciam extensas e especiais. Curiosa, corri a seu encontro, pedi para ler as anotações. Tímida, ela recusou, afirmando que eram singelas demais para minha leitura. Pelo encanto que tenho com a simplicidade, continuei insistindo. Ela enfim cedeu, eis aqui o relato que encontrei em suas observações:

“Tudo começou em uma ensolarada segunda-feira de verão. Avistei uma máquina de dois andares, com ar condicionado e uma boa tribo de baixo. Como não é sempre que se tem ar condicionado grátis, adentrei e lá fiquei.

Passadas vinte horas de espera, chegamos ao esperado destino. Num parque cheio de harmonia, em meio a árvores que tocavam o pintado céu com suas copas, eu avistei um colorido diferente. Cobertos com a força daquela linda bandeira amarela, haviam inúmeros casulos triangulares que serviam de abrigo para grandes jovens cheios de sonhos e vitalidade. Um ambiente sereno e calmo, agraciado com a visita ardente da grande estrela central, que certamente se identificou com o amplo tecido que abrilhantava ainda mais as pequenas tendas.

Eu estava mais ansiosa do que nunca – principalmente por saber das sublimes presenças que serviriam o Fórum. Tinha ciência de que esse novo ano seria um desafio e cenário de grandes aprendizados. E eu estava pronta, já com todos os pedidos realizados e armada com a garantia de que faria o possível para permutar a atual conjuntura. Felizmente, algo grandioso aconteceu rapidamente: meu espírito revolucionário foi alimentado com uma experiência ímpar, que além de enriquecedora, inundou de informação o âmago de minha consciência que antecede às ações transformadoras.

Após um primeiro dia exaustivo de passeatas, as atividades do quinquagésimo Fórum Social Mundial Temático – que iam de palestras, mesas de debates à manifestações culturais, literárias e artísticas – começaram. Os primeiros encontros foram fascinantes. Rastros de céu eram deixados em meu ser a cada admirável exposição. Senhor Boaventura de Souza Santos me fez encantar logo no primeiro dia, com sua fala sobre a globalização, desigualdade e a crise civilizatória – ao explicar sobre a guerra decorrida da crescente arrogância do capital financeiro e questionar avidamente, por que criou-se a ideia de que os que ganham mais, devem pagar menos. Além disso, relatou que nos encontramos em plena fase de aprendizado e precisamos realizar uma maior vigilância em nosso governo, na questão de defender os interesses progressistas.

Foi lindo apreciar a poesia contida numa diversidade de línguas, etnias, nacionalidades, gêneros e formas, que não cabia nem mesmo na vastidão de meus olhos; enxergar negros e negras falando com orgulho de sua raça – que aliás, é linda; presenciar mulheres empoderadas e LGBTs falando sobre sua tão incessável e digna luta. Mais lindo ainda era saber que aquela diversificação humana havia tomado a capital dos gaúchos, que mesmo com toda a sua forma europeia, não resistiu aos encantos da pluralidade racial e cultural.

Porto Alegre ficou pequena para tamanha formosura. Lá, me senti representada e com um baita orgulho de ser nativa desta terra ao ver tanta gente lutando contra o golpe – partilhando de mais uma afirmação de Boaventura que exalta a importância de lutar pela democracia: “Vamos defender a presidenta, mas precisamos que ela nos ajude a fazer isso”.

Diferentemente dos grotescos ambientes diários de convivência, não me senti menosprezada por ser mulher. Pelo contrário, figuras como a da deputada Maria do Rosário, me fizeram sentir empoderada. Suas falas incitaram minha sede de mudança, quando ela mesma declara que precisamos disputar valores, ideias e o diverso conceito de economia; que precisamos dizer que não estamos confortáveis com uma política econômica que siga a doutrina da diminuição da participação do estado.

As emoções não cessaram nem por um segundo. O esperado encontro com o homem que, além de alegrar meu coração com suas canções, também me faz o admirar como cidadão, foi incrível. Fiquei trêmula, não consegui dizer o que pretendia, mas foi ótimo poder conhecê-lo – Tico, obrigada! – e ouvir o pronunciamento de alguém que, mesmo fora dos movimentos sociais, entende que todos somos sócios dessa luta e que necessitamos de um mundo mais humano, democrático e consciente.

Ainda tratando-se da intensidade de sensações, recordo-me de um dos momentos mais comoventes de todo o evento: a fala do rapper guerreiro Moyses Martins, dono de um brilho e talento nato e possuidor de uma deficiência física – que não o limita, mas o acrescenta.

Além de darem aulas sobre valores, respeito, igualdade e inclusão, expuseram as dolorosas feridas aos dedos humanos, as cicatrizes que o capital financeiro deixa na sociedade e a nossa responsabilidade em transformar a atual situação. Meu anseio por mudança foi fomentado grandiosamente e foi evidenciada a responsabilidade que nós – cidadãos conscientes, criadores de ideias e não reprodutores do senso comum – possuímos, de não somente discutir (como o próprio Boaventura cita), mas tomar decisões e posições transformadores e contrárias a esse sistema que oprime e tenta limitar nossos pensamentos e sonhos.

Enquanto jovem, fiquei imensamente feliz pelo reconhecimento e compromisso no tratamento das pautas de nosso íntimo interesse. Por reconhecerem que a juventude é além do futuro, também o presente da nação. Que temos condições de debater sobre política, economia e todos os assuntos que circundam a existência humana.

Houveram discussões magníficas sobre a reformulação do ensino médio e de nossa educação em geral. Ficou nítido que para neutralizar a insistente tentativa do capital de mercantilizar o ensino (tratando-o como mercadoria e não como direito), precisamos de uma educação popular – que além de tudo, é um antídoto para a criminalização popular. Boaventura e Baltazar Garzón fizeram falas de extrema importância nessa questão, deixando claro que esta educação é necessária não só para nós, mas também para os educadores e dirigentes políticos.

Os debates foram enriquecidos com as contribuições da mocidade. Nossa voz ecoou aos quatro cantos do senhor Araújo Viana e de todos os outros palcos, enaltecendo a necessidade de uma educação participativa, representativa, que tenha a face dos movimentos sociais, incite o pensamento crítico e a criatividade e não somente a exigência superficial do atual modo de produção; que não precisamos de uma suposta “educação” que traga consigo as sórdidas ideias dos opressores.

Necessitamos de um ensino que traga em seu âmago, as cores e belezas de nossas bandeiras. Uma escola concernente ao povo, com um aprendizado que não se limita a expressões algébricas, mas que transmite valores, acabe com os resquícios da ditadura militar e forme cidadãos honrados, capazes de formar conscientemente suas próprias opiniões – extinguindo a onda de jovens papagaios, que apenas reproduzem as manipuladas informações que acessam por intermédio dos meios de comunicação.

Naquele breve e lindo cenário que contemplou minha mente e espírito, pude me realizar e enxergar de perto a venustidade da mistura que nos provém e a satisfação de me incluir num povo mestiço, guerreiro e que não se limita às exigências impostas pelo capital.

A chama da revolução está mais acesa do que nunca. Declaro fortemente que precisamos lutar por um mundo mais igualitário, em que sejam tomadas como exigências primordiais o caráter, a sabedoria e a alma em detrimento à orientação sexual, raça, gênero e aparência.

Não precisamos de “revolucionários” de sofá, levantem-se! A sociedade patriarcal, capitalista e sexista não mudará sozinha, são necessárias mãos amarelas ali – não só amarelas, mas vermelhas, lilases e todas as outras cores do arco-celeste. E são com estas, com a força dos que pensam e lutam, que conseguiremos incendiar o universo e socializar os seres, para que todos possam habitar o mesmo lugar com solidariedade, fraternidade e igualdade.

Carecemos de luta, de um mundo enegrecida, arco-íris, lilás, repleto de paz e amor! Além do mais, como o grande sociólogo Boaventura afirmou: ‘Quem não ama e não distribui afeto, também não faz revolução.’”