Escola de um partido só

Autora: Maria Isabel Trivilin

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O projeto de lei “Escola sem partido”, proposto pelo senador Magno Malta, a partir da afirmação que muitos professores tentam doutrinar os alunos com uma ideologia ligada à esquerda brasileira, traz em essência uma ideia que obriga a neutralidade do professor em classe, o proibindo de expôr opiniões ideológicas sobre qualquer assunto. Entretanto, antes mesmo da democratização do ensino, observa-se a impossibilidade de uma escola sem ideologia – assim como uma igreja sem ideologia e até um lar sem ideologia. Nesse sentido, é importante compreender a necessidade de apresentar, no ambiente escolar, vários caminhos de pensamento que permitam aos jovens pensar e escolher aquele que mais se assemelha à sua visão de mundo.

A escola, pelo menos em tese, tem como principal função social formar cidadãos conscientes, que sejam capazes de coerentemente formular seu pensamento e questionar as inverdades absolutas do mundo – para que estejam preparados não só para uma prova de vestibular, mas para as inúmeras situações da vida. Exatamente por isso, errado seria se o professor expusesse ao aluno apenas um lado da história, mas validar um projeto que retira o método de ensino a partir de visões ideológicas, além de impossível, descartaria a principal função da escola, já que, após o término do período ditatorial brasileiro, faz parte de sua estrutura permitir que o aluno pense e tenha contato com as diferentes ideias existentes.

Além disso, muito se questiona sobre as reais motivações do senador com a proposta, já que por defender a neutralidade plena, espera-se que ele também tenha tal posição. No entanto, seu posicionamento político partidário, juntamente com os apoiadores do projeto, ligado à direita, faz com que desconfia-se de uma posição imparcial. Mais parece uma oposição de forças e uma tentativa de guiar os alunos a um campo só: o da direita reacionária e conservadora.

Por reconhecer a impossibilidade de uma escola sem partido, o projeto torna-se de forma quase nítida, uma tentativa de doutrinação forçada, através de mordaças, à ideologia de direita – retirando a liberdade de expressão e censurando o conhecimento, a fim de que os alunos não tenham acesso à todas as informações históricas e sociais e não debatam sobre as barbaridades que ocorrem por todo o mundo. Desta forma, é importante salientar que a proposta de imparcialidade não funciona, já que vai contra as próprias diretrizes democráticas da escola e a seu caráter social de formação. Assim, ao invés de sem partido, é essencial que o professor tenha a autonomia – sem vigilância, coerção e monitoramento opressor – de apresentar aos alunos diversas visões ideológicas, que cessem a ignorância e lhes concedam a liberdade de escolher à qual mais se identifica.

Se a escola não tem como princípio fundamental emancipar seus alunos, através do pensamento crítico, não há de fato uma escola. A educação precisa ser libertadora e empoderadora!

“O aluno na escola tem direito de pensar! Escola sem partido é ditadura militar!”

NÃO AO PL DA MORDAÇA!!!

MACHISMO MATA – inclusive no réveillon

Autora: Maria Isabel Trivilin

elemataResolvi me sentar no beiral de minha alta casa a fim de observar a cidade e tentar entender essa triste e quase morta sociedade. O beiral era alto, como um grande muro, a primeira casa que avistei era de uma jovem de menos de vinte anos. Ela me enxergou e seu olhar abriu-me as portas de sua alma, como se eu pudesse conhecer toda a sua história a medida em que as palavras saíam da silenciosa boca abrilhantada com brilho cor-de-mel:

Camila acordou, tomou café e ligou a televisão para assistir os desastres do dia. Na rede Golpe, se deparou com uma notícia que fez arder sua própria espinha – e o resto de alma que ela ainda possuía. Um pai, desnorteado por não poder ver mais o filho – já que judicialmente ele foi proibido após violentar sexualmente a criança – por culpar a mãe e sentir por ela um ódio imenso, mata o filho, a ex-esposa e mais dez pessoas da família durante festa de ano novo. Para além disso, a matéria dizia que ele havia deixado cartas para que sua lógica doentio se perpetuasse, já que afirmava que todas as feministas mereciam morrer por serem vagabundas, ardilosas e por inspirarem outras vadias a fazer o mesmo que a jovem mulher de Campinas fez: afastar um pai perigoso, que estuprou o próprio filho, para que ele não o machucasse mais. E terminava as barbaridades dizendo que a responsabilidade desses pais seria acabar com todas essas mulheres e suas famílias, para garantirem a justiça, a dignidade e a honra no leito de sua morte.

Camila ficou assustada e mais pálida que os copos de leite do jardim de sua avó. Ora bolas, ela também era uma vadia. Na verdade, sem entender, era assim que a chamavam. Certa vez, a jovem estava indo ao supermercado, cerca de seis horas da tarde, quando se deparou com um homem que a parou cruelmente e a violentou, marcando sua vida sofrida para sempre. Da violência, surgiu Augusto: mais um filho do estupro. Como não podia nem pensar em aborto, criou o menino e no último dia 10 ele completou dois anos. Quando a vila ficou sabendo, Camila se ferrou. A chamaram de nomes horrorosos e, por óbvio, a culparam por estar naquele horário de shorts curto perambulando pela rua… Até porque, uma menina decente de 15 anos não sairia as seis horas da tarde sozinha de casa com vestimentas indecentes, isso notoriamente é comportamento de mulher que merece e está pedindo para ser estuprada.

Camila hoje tem apenas dezessete anos e está assustada com a carta do ex marido lunático, já que se a ideia se alastrar, muito provavelmente ela também será morta por sua inevitável condição inferior de mulher vadia. Se virar epidemia, talvez a amaldiçoada espécie desapareça, já que aos olhos da doente sociedade, todas as mulheres em alguém ponto foram, são ou serão vadias.

Camila se deitou e chorou a noite toda por lembrar da violência que sofrera – cicatrizes que vinham à tona todas as vezes que olhava para o doce Augusto, que apesar de não ter culpa de nada, sem saber, era um filho do crime. Camila sentiu medo de morrer novamente, mas desta vez pra sempre, já que como o assassino registrou, “as mulheres têm medo de morrer com pouca idade” – os homens não, pois são fortes, machos, robustos e corajosos.

Sua história tocou meu coração, pois sinto na pele o quão difícil deve ser a vida de Camila. Sei o quanto a opressão dói, o quanto tememos por um futuro próximo de estupro, violência sexista ou uma vida inteira encarcerada em raízes patriarcais. Medo ainda maior por ser feminista e o alvo mais claro, a culpada suprema pela desordem da humanidade: mulheres que se rebelam e são chamadas de vadias até a morte por terem coragem de enfrentar seus opressores.

Notícias como essas apenas aumentam o clamor de minha luta, mas de fato é tormentador pensar que ainda há gente que diga que machismo não machuca, não mata, quiçá existe. Esse coitado de Campinas que matou doze pessoas numa festa de réveillon por ódio e sede de justiças às vadias, deixou-nos cartas que dizem por si só. Que clamam sozinhas o que protesto em todas as manifestações populares que, apesar das inúmeras críticas, foram as grandes responsáveis por garantirem o direito ao voto feminino e aos demais direitos básicos já conquistados. As cartas evidenciam fortemente o discurso de ódio contra as mulheres, chegando até a tragédia que as matou.

O mais doloroso é ver meninos jovens já consumidos pela triste construção sexista, proliferando bobagens e compartilhando mensagens que defendem ações como estas, em que mulheres são mortas e estupradas por não obedecerem as ordens de seus homens. O mais triste é ver que o conteúdo sórdido presente na carta do assassino, apesar de ainda chocar, está presente em várias timelines Facebook à fora, com likes supremos sem que ninguém mova-se para impedir que tais catástrofes ainda aconteçam.

Sentada naquele beiral, pude refletir muito sobre o quanto o machismo mata. Mata infâncias marcadas por violência sexual, moral e física; mata meninas estupradas por tios, padrastos e até pais; mata sonhos e cria obstáculos impostos ao gênero; mata adolescentes por saírem de shorts curto na rua e ainda terem que ouvir que mereciam ser estupradas. Mata esposas que querem se separar, mas não podem por serem propriedade do homem; mata realizações pessoais que são impedidas pelo marido não deixá-la sair sozinha na rua, nem trabalhar fora – até porque, lugar de mulher é em casa, na cozinha, enclausurada no espaço privado. Mata mais de 400 mulheres por dia através de agressão e violência doméstica, mesmo com a lei maria da penha – ou “vadia da penha”, como dizia o injustiçado pai de Campinas – em vigor desde 2006. Mata, a cada 11 minutos, uma mulher por violência sexual na justa pátria amada Brasil. Mata até crianças, mata menino, mais bem menina. Mata esposa, ex-esposa (que já é mais comum na TV que comercial de margarina) e mata também família inteira durante o réveillon. Ou melhor, família inteira de vadias durante o réveillon.

É importante que ressaltemos um ponto: a culpa destas mortes não é só do pobre – em seu significado real – autor do crime, que vingou com as próprias mãos “as dores que as vadias o provocaram”, já que ele representou vários homens que possuem o mesmo desejo. A culpa é voltada a todos que simpatizam com seu sórdido discurso de ódio às mulheres e que disseram que a ex-esposa era a grande culpada por tê-lo afastado do filho que ele tanto amava – e que mesmo assim o matou. A culpa dessas mortes é sua, que fica criticando o movimento feminista sem compreender sua função social de impedir que mais mortes trágicas como essas ocorram sob o manto ensanguentado do patriarcado. A morte desse menino, de apenas 8 anos, de sua mãe e de mais dez “vadias” da família, é integralmente de todos que apoiam esse discurso e não compreendem que tornou-se uma necessidade lutar pelos direitos da mulher em uma conjuntura que apoia e assiste tantas demonstrações de desigualdade de gênero.

Como disse Ana Julia, no famoso discurso sobre as ocupações estudantis, a todos os propagadores de mensagens de ódio contra mulheres feministas, mães e ativistas da vida, que acham que todas devem morrer por serem mulheres, olhem para suas mãos límpidas e belas: elas estão manchadas de sangue. Sangue de doze pessoas e de milhares de mulheres que morrem por ano por conta desse mesmo discurso opressor, machista, sexista e que por tão naturalizado resulta até em mortes de almas e vidas.

A luta feminista é por Camila, por Maria, por todas que sofrem, lutam e resistem. Sentada naquele alto muro, fiquei me perguntando quantos inocentes ainda precisarão morrer em nome dessa opressão cruel. Estou aqui pelas mortes de tantas mulheres, crianças e jovens pelo sistema que você defende. Por fim, segundo o assassino, o Feminismo está destruindo famílias e vidas, mas nunca houve notícia de feminista entrando em uma casa e matando todos da família. Reafirmo: o Feminismo nunca matou ninguém, já o machismo? Esse mata todos os dias!

“Eu morro por justiça, dignidade, honra e pelo meu direito de ser pai!” disse o assassino.

Discurso bonito, mas não convence. Eu sim morro por justiça, dignidade, honra, liberdade e pelo meu direito de ser mulher, de viver e sobreviver em um mundo em que pessoas não são taxadas por seu gênero, mas pelo que realmente são.

 

Relato de um favelado

Autora: Mayara Strada

nossaliCarioca, morador de favela, pobre, 27 anos, filho de empregada doméstica e jardineiro. Casado, sem estudo, pedreiro, anônimo.

Apesar das dificuldades, cresci com amor. Meu amigo Fábio não teve a mesma sorte, o pai traficava, agredia-lhe juntamente com sua família e, por fim, foi morto pela polícia militar. Mas fazer o que, né? Ele sustentava a família.

Lembro-me como se fosse hoje, tínhamos dez anos e ele era meu melhor amigo, talvez o único. Sua mãe arrumou um emprego como faxineira, os patrões não gostavam muito dela, mas que escolha tia Jurema tinha? No início eu ajudava-lhe a cuidar de seus dois irmãos mais novos e pouco tempo depois tivemos que começar a trabalhar no sinaleiro, vendendo bala mesmo.

Aos onze anos trocamos os carrinhos de madeira, feitos por nós mesmos, pelo trabalho, não era muito lucrativo, mas já ajudava. Lá em casa comíamos um pedaço de pão pela manhã e apenas uma breve “jantinha” no fim do dia, já que papai e mamãe saíam antes do sol nascer e só voltavam no começo da noite. Quando chegava meio-dia meu estômago roncava, mas com as moedinhas que eu ganhava não era possível nem comprar um lanchinho.

Aos doze saí da escola, escola não dava retorno. Aos treze vi Fábio morrer, vítima de uma bala cruzada em um tiroteio no morro. Parte de mim também morrera. Dos quatorze aos dezoito catei papelão, limpei chão de restaurante, fui garçom e cozinheiro.

Aos dezenove meus pais morreram, dói até hoje saber que não pude fazer nada. Estavam voltando para casa quando foram assaltados e, como não possuíam nem um tostão na carteira, os ladrões, com raiva, os mataram.

Aos vinte anos casei, ou melhor, me juntei com a Rosa. Morávamos no barraco dos meus pais, minha herança. Nesse mesmo ano a mãe de Fábio adoeceu, falecendo um tempo depois. Foi bom ela ter ido, pelo menos descansou. Os irmãos dele trabalham comigo na obra, sinto que devo ajudá-los de alguma forma, mas não consigo fazer muito.

Aos vinte e três fui pai. Não sabia se chorava de alegria ou de tristeza. João nasceu – a esperança não. Minhas lágrimas caíam por saber que talvez ele não tivesse leite para tomar, que poderia morrer a qualquer instante por uma bala perdida, que não teria brinquedos, nem uma doce infância, talvez nem esperança de uma vida melhor.

Minutos depois a TV anunciava a corrupção do senado, o desvio de verbas públicas, o capitalismo avassalador. Olhei para o céu, com João nos braços, com a sensação de impotência diante do mundo, aquela desesperança consumia-me dia a dia.

Que país é esse, em que a corrupção acelera a desigualdade, massacra os menos favorecidos e destrói milhares de vidas todos os dias? Até quando isso vai perdurar? Que país é esse em que sobreviver é uma luta diária, um desejo constante?

Sou anônimo, talvez por isso o sistema não me olhe. Ainda assim, continuo na luta, na labuta diária.

Imagem: Grupo OPNI

 

Feliz dia das crianças!

Autora: Maria Isabel Trivilin

pec.jpgUm dia de festança, de comemoração do ser que faz com que as pessoas tenham esperança na humanidade, hoje traz uma simbologia muito mais cruel e sem ursinhos de pelúcias felizes.

Poderia escrever sobre a doçura dos olhares de uma criança, a espontaneidade de seu sorriso e a ingenuidade de seu coração, tão cândido, sem todo o sórdido lodo que inunda a maioria dos cidadãos, mas estaria sendo injusta com seus próprios passos, com seus incertos e tristes futuros.

Não há pior presente para uma criança, no dia de hoje, que a aprovação da PEC 241. Elas conviverão, nos próximos vinte anos, com o congelamento das aplicações em saúde, educação, previdência e assistência social. Não terão uma infância tão doce como a minha, quiçá uma escola – mesmo que sucateada – como a minha. Estudarão em shoppings centers e se formarão em grandes indústrias com aulas de como ser um bom empreendedor – oprimindo alguém – e aulas de como organizar prateleiras em um hiper, super, megamercado – ser oprimido por alguém.

É triste ter que apagar, mesmo em um texto tão singelo, a cor de um dia que deveria ser tão belo. Mas sejamos realistas: as crianças de hoje, chorarão muito daqui vinte anos. Aqueles que se satisfazem com pirulitos e balas de gomas, amanhã sentirão a dor da aprovação de uma medida elitista e desonesta, no dia em que comemora-se a vida em sua melhor fase. Uma proposta de emenda à constituição que cessa os concursos públicos e limita os investimentos para as despesas primárias – que afetam diretamente a população e provocam um completo desmonte e sucateamento nos serviços públicos.

Em resumo, a educação, saúde e assistência social, nos próximos dez anos, perderão mais de trezentos bilhões de reais – simplórias moedas que farão com que a tragédia se alastre e a população sofra. O descaso dos governantes não é pouco: seus salários apenas aumentam, suas bolsas auxílios também, enquanto o pobre não terá direito nem às condições básicas de vida.

Lamento por vocês, crianças. Hoje se satisfazem com adornados presentes de seus pais, mas infelizmente essa alegria é muito passageira e digna somente de vocês, com almas tão puras e mentes que ainda não compreendem a desgraça que está sendo feita com suas vidas.

O brilho momentâneo nos olhares destas crianças, me fazem temer ainda mais. Elas não terão oportunidades como eu tive, nem saberão o que são pautas progressistas e crescerão sendo oprimidas com mais ferocidade. Não sei se quando crescerem, ainda terão o direito de protestar, ocupar e resistir. Espero que tenham, pois esse é o único caminho para emancipar os trabalhadores. Não quero ser pessimista e dizer que estamos caminhando a uma ditadura, realmente espero que isso não aconteça – ainda assim, temo por Temer, por querer privatizar nossa educação e criminalizar nosso movimento.

Não basta agora oferecer jujubas à criança, o mais triste presente já está sendo dado: a destruição de seu futuro, através dessas medidas, principalmente se ela for pobre, mulher, negra, LGBT, moradora de periferia. A estas, as palavras não cabem, não exprimem minha dor.

Por vocês, uma vida inteira de luta. Para as mães, pais, tios e todos que se dizem humanos, é isso que seus filhos, netos e afins terão na vida: menos saúde, educação e humanidade – quase zero. Mas acalmem-se, terão muitas indústrias para morreram de trabalhar; terão muitas escolas com mordaças que não os permitirão pensar; muitas matérias técnicas, sem Sociologia, Filosofia e Arte; terão uma vida toda de opressão pela frente. E isso, para enegrecer, é culpa de vocês que bateram panelas contra a “corrupção”, mas estão sentados diante das medidas que estão sendo implementadas.

A culpa do futuro dessas crianças, que com o aumento da desigualdade social, morrerão pelo capital, é de vocês! Elas morrerão de fome, como já morrem. Morrerão de fome por educação, saúde, por uma cesta básica que não receberão mais.

Estamos morrendo! A PEC da desigualdade e as reformas alienadoras ascendem. Há saída? Resistir, como sempre. Lutar para que um dia esse sistema mude e as pessoas sejam tratadas com igualdade.

Temer e sua corja oferecem a todos um lindo dia, junto ao fim da esperança, do sonho, do futuro e do simples direito de ser criança.

Do luto à luta: não reconheço governo golpista!

Autora: Maria Isabel Trivilin

CiQ7EgOUYAQB1XzHoje o tempo nublado caracteriza com clareza os sentimentos que pairam no país. Confesso que ainda tinha um pingo de esperança nessa nação perturbada, mas realmente, aos 18 anos de idade, no auge de minha jovem militância, estou presenciando um golpe.

Sinto algo ainda mais forte do que senti naquele dia em Brasília, quando o processo foi aprovado na Câmara dos Deputados. Ver trabalhadores chorando em frente ao Palácio do Planalto não passa perto do caos do momento. Feriram de vez a democracia, o voto de mais de cinquenta milhões de pessoas que foram às urnas no dia 5 de outubro de 2015 e elegeram democraticamente uma presidenta – aliás, a primeira mulher a presidir o idolatrado pau-brasil.

Constatamos um golpe de estado contra toda a classe trabalhadora, sofrida, que há 14 anos usufrui de políticas públicas que, incontestavelmente, transformaram, através de reformas populares, o curso forçado das águas mercantis, levando pão a mesa dos pobres, trazendo os negros e periféricos para as universidades e dando-os acesso à saúde e à uma vida mais digna. Hoje, esse ciclo 13+1 se encerra, com o pesar de inúmeros brasileiros que temiam por Temer, temiam por observar a democracia caminhando ao abismo juntamente com toda a nossa luta, sem que pudéssemos reagir à altura. Notando que, estamos novamente adentrando um período dominado por fascistas, machistas, racistas e tirânicos engravatados.

Tentaram, insistiram e conseguiram usurpar o digno direito de uma mulher governar a nação. Uma mulher que teve sua vida exposta, que foi torturada durante a ditadura militar e que não baixou a guarda – também não baixaremos. Apesar de todas as falhas de seu governo, que indico inúmeras críticas, nenhum ser ressentido, que não sabe lidar com as frustrações da perda ou com a decoração de sua posição tinha o direito de tirá-la de onde o povo a colocou. Pedaladas fiscais não são motivos para um impeachment e todos os imundos daquele tribunal sabem disso. Não tendo crime de responsabilidade, é golpe! É golpe de novo, meu povo!

Hoje a dor não é só por terem ferido a democracia, a constituição e o voto do povo suado das ruas brasileiras, mas por notar mais uma mulher sendo injustiçada, rebaixada, tendo todas as suas forças violadas por truculentos seres que não conseguem lidar com a ideia de que a população avança, que há pobre na universidade e na fila do pão; tiranos que não conseguem ver uma mulher empoderada, discursando um texto que ficará para a história, assim como toda a sua luta e garra; por homens que não conseguem ver a classe trabalhadora com direitos, que não enxergam as belezas que produzimos e não nos tratam com humanidade.

A dor está em cada pétala de rosa que caiu sobre o chão naquele 30 de abril, naquela chacina criada por um apoiador de Temer nas ruas do Paraná. A dor está naquela mata em que dois companheiros do MST foram mortos por estarem lutando pela terra. A dor está por Jadson José, estudante de negro e da periferia, que foi morto pela polícia militar. A dor está em saber que isso será cada vez mais comum e que agora terão caminho aberto para aniquilarem nossos sonhos, matarem nossas almas e venderem nossos espíritos. A dor está em saber que agora serei ainda mais produto, menos gente; ainda mais mercado, mais identificada por um código de barras inamovível e morto. Agora o caminho se alongou para aquela sociedade que eu tanto luto: mais humana, igualitária, sem 1% possuindo toda a riqueza dos 99%. Agora a luta de classes será brutal, companheiros. A classe oprimida terá que se unificar ou será morta de novo, como em 1964.

Minha tristeza é por todo trabalhador que hoje levanta a bandeira do golpe com glória, pela grande massa alienada que não faz ideia que a ponte resulta em um precipício. É triste ver jovens felizes com o que nos foi atribuído, fechando os olhos para a parcialidade que reina nos três poderes. Entretanto, meus olhos lacrimejados não neutralizam a força de minha luta, a lamentação não transformará a realidade. É preciso permutar o luto por luta. Agora ou perdemos a paciência ou perderemos a vida. A calmaria acabou, a lei da mordaça avança, juntamente com todas de natureza elitista e conservadora.

Declaro guerra aos golpistas! Enquanto houver um rico ceifando a vida de um pobre, enquanto uma classe minoritária possuir toda a riqueza de um povo, enquanto houver jovens morrendo pela política militar, uma mídia manipuladora, tentativas de mercantilizar o ensino e todas as nossas forças vitais, haverá luta, resistência e muitas percas de paciência.

É com pesar que encaro a morte da jovem democracia. Assim como o jovem Jadson José, ela foi morta pela polícia militar. Morta pela mídia golpista, por essa lógica elitista cruel e pelos fascistas que agora estão no poder. Eu não reconheço esse governo, ele não é legitimado pelo povo!

A juventude da classe trabalhadora resiste! Fora, Temer!!!

Resisto!

Autora: Maria Isabel Trivilin

carambaNoixHoje me surpreendi com a vida – na verdade, com a falta dela. Era uma manhã cinzenta, fria e nublada, anunciando que a semana traria verdades. Saí de casa, peguei o ônibus e cheguei ao destino.

Comecei a conversar com seres que, normalmente, fazem minha barriga doer de tanto sorrir, costumam florir meus dias. No entanto, apesar de serem extremamente bons de coração e alma, não entendem claramente minha luta, tive a prova que estão ainda presos nas amarras do pobre casulo que eu tanto desdenho.

Quando cheguei em casa, resolvi pontuar o que achava que neles faltava, pois normalmente os defeitos que enxergamos nos outros são apenas reflexos de nosso interior, os que estão em nós. Conclui que falta coragem, sensibilidade, falta abrir a mente e deixar a luz entrar. Falta sair da caverna, da sala, daquela universidade burocrática e injusta.

Falta lembrar que há gente morrendo enquanto escrevo esse singelo texto, pessoas sendo violentadas por terem nascido com orientação sexual, raça, gênero, condição diferente. Gente morrendo de fome, por um sistema cruento que concentra a renda nas mãos de uma classe minoritária asquerosa. Gente se suicidando por não aguentar a própria existência (sem vivência), por não aguentar as cobranças de um modelo falido e desumano. Pessoas enlouquecendo por não tirarem notas suficientes para passar em uma prova que taxa sua inteligência, capacidade e que decide o seu futuro e sórdido destino.

Há gênios morrendo por se acharem asnos e estúpidos governando nações. Há algo de muito errado nesse mundo. Agora me pergunto, será que é bom enxergar tanto, ter ciência dessas barbáries? Aqui cabe aquela frase que li no outdoor em Niterói: “A ignorância é quase que uma dádiva”. Continuo me perguntando, sem entender o sentido de tudo. Talvez minha luta uma hora me traga paz e esclareça que não há dádiva maior que viver com consciência, liberdade e igualdade. Enquanto isso, persisto, insisto e continuo falando até que todos entendam, se cansem ou me expulsem.

Não é fácil ler o mundo de outra forma, enxergar além do que os olhos capacitam. Talvez não fizesse tão sentido se fosse fácil, eis então o desafio: resistir e tentar esclarecer às pessoas a beleza de um outro mundo mais humano, arteiro, poético e concernente aos nossos anseios.

 

Sublime arco-celeste

Autora: Maria Isabel Trivilin

hahahaVoltando para casa num dia de intensa névoa e tristeza, avistei um arco-íris. Sendo uma das coisas mais lindas e mágicas que eu já vi, cá estou eu para falar um pouco dele.

Quando os raios solares se encontram ante às mais belas gotas de chuva, surgem as lindas faixas cintilantes. É muito mais que apenas a separação da luz solar em seu espectro contínuo, trata-se de trazer luz à sobra, paz à escuridão. Uma nova forma – tão digna como todas as outras – de proclamar o amor, difundi-lo, evidenciando que sua força ultrapassa tabus e preconceitos.

Um arco-íris humano que traz em cada feixe de luz, um rosto novo, forte, agraciado de luta; traz em cada cor, um beijo doce em detrimento ao pranto. É revoltante pensar que ainda há gente que desrespeita o imenso arco-celeste luminoso. Mas ora, há em si sua lógica, é compreensível… Na plenitude deste mundo preto e branco, deve incomodar tanta coloração de afeto, não é? Em meio a esta área sombria que, apesar das magníficas riquezas naturais, continua exalando trevas em forma de gente preconceituosa e cruel, é natural que se incomodem com tanto brilho.

Triste realidade, bruta e cruel falta de humanidade – que esclareço, porém, não fazer parte. Essa luta também é minha, apesar de eu não ter nascido com a especial purpurina. Força na luta, gente bonita! Beijem e continuem transbordando amor, não ódio. E para os supostos religiosos, orem por si próprios, para que parem de julgar uma realidade que não conversa com a sua. Respeitem e aprendam a amar o próximo, tal qual Jesus fez. Para os que seguem à risca a Bíblia, comecem a seguir bons preceitos: “(…) és indesculpável, ó homem, sejas quem for, quando julgas, porque a ti mesmo te condenas em tudo aquilo que julgas no teu semelhante”, extinguindo a linha de apontar erros pecaminosos por uma condição que vocês não possuem, nem entendem. Precisamos de mais humanidade, irmãos fiéis da igreja! Pecado é matar, torturar, violentar e humilhar, o resto não cabe a vocês, meros pecadores mortais.

Aos gays, lésbicas, bissexuais e transsexuais, todo o respeito do mundo. Continuem colorindo o mundo, que a liberdade de vossos corações e almas não se intimidem com essa infeliz onda de opressão. Aos heterossexuais que utilizam a violência como meio de defender sua crença, repensem suas sórdidas atitudes e aprendam a colorir também, talvez com o pincel mais importante para um principiante: aquele verde, que me remete respeito, amor, igualdade e esperança por dias melhores.

Enquanto pessoas estiverem morrendo – de carne ou espírito – por possuírem uma orientação sexual ou identidade de gênero diferente da típica “normalidade”, haverá luta. A revolução será colorida ou não será!

 

17 de maio – Dia Internacional de Combate a LGBTfobia.

 

 

Uma imagem e mil palavras

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Trabalhadores, bom dia de luta!

Autora: Maria Isabel Trivilin.

trabalhador.jpgPor muito tempo vi minha mãe sair às sete da manhã e chegar às sete da noite. Durante toda a minha infância, lembro-me de vê-la apenas antes de dormir e nos fins de semana – um fim de semana que se restringia ao domingo. Lembro-me de cobrar sua presença, de cobrar que levasse eu e minha irmã para passear e de questioná-la o porquê de trabalhar tanto. Antes eu não compreendia, mas hoje os passos forçados de minha mãe em direção ao trabalho me fazem querer lutar ainda mais. Como ela iria nos levar a sorveteria se chegava quase morta de cansaço em casa? Como poderia estar em todas as apresentações e reuniões de escola, se trabalhava dez horas por dia? Hoje, tudo isso me faz enxergar a importância do dia do trabalhador.

Essa é a realidade de milhares de brasileiros, de filhos, pais e parentes que se distanciam por não possuírem tempo para um chá da tarde ou para jogar uma conversa fora após o almoço. Desde àquela primeira manifestação trabalhista em Chicago até a última ocorrida em Curitiba, tratamos o dia de hoje como uma comemoração por todos os direitos já conquistados. Entretanto, com a conjuntura atual e a tristeza que nos circunda, não vejo muitos motivos para comemorar, não sinto o aroma de felicidade no ar.

Há um abatimento pairando sobre as esbranquiçadas espumas, que no âmago dos fortes, vem à tona em forma de luta, de exaltação da necessidade da unificação dos trabalhadores, a fim de reconquistarem de fato seus direitos e assegurarem que os outros não lhe sejam tirados. Por ser um dia diferente, não desejo-lhes um “feliz dia do trabalhador”, mas felicito-lhes pelo dia de luta trabalhista.

Meu cumprimento, para colocar em evidência, é destinado aos trabalhadores de verdade, não àqueles que saem de sua confortável casa para humilhar e desrespeitar funcionários em suas imensas indústrias de opressão, àqueles que exploram o proletariado para encher os bolsos e os cofres escondidos por atrás dos quadros de Dalí.

Desejo um dia de luta para os homens que trabalham sob o sol escaldante para conseguir míseras moedas e alguns litros de leite. Desejo força aos trabalhadores de fibra, que saem de casa as cinco, seis, sete horas da manhã para alimentar sua família, trazer o pão nosso de cada dia. Aqueles que não nasceram em berço adornado por pétalas de ouro e precisam batalhar por uma vida mais digna e pela garantia de um futuro melhor para seus filhos. Felicito as donas de casa, que exercem um trabalho esgotante, contínuo, sem feriados e férias – que ainda não é valorizado. Felicito as empregadas domésticas, que trabalham duramente e ainda precisam ouvir que seu trabalho não é digno ou é motivo de vergonha. A vocês, que dedicam todos os seus suspiros em empregos nas ruas das metrópoles e nas roças das cidadezinhas do interior: um bom dia de luta. Vocês são realmente dignos de todo o respeito e admiração.

Um bom dia aos protagonistas – sem evidência e status – desse sistema, os grandes responsáveis pela produção do país. Mais do que um bom dia de luta aos trabalhadores, desejo do fundo de minha alma, que um dia vocês possam trabalhar menos, que não precisem deixar seus filhos em casa, privando-se de vê-lo dar o primeiro passo e ensiná-lo como é a vida e como ela deve ser vivida, para encher o bolso de um patrão. Espero que um dia não tenham que dedicar toda a sua existência ao trabalho, pois a vida é muito mais ampla que um muro alto enferrujado. Espero que deixem de apenas sobreviver, que possam viajar, aproveitar os prazer gratuitos da vida e ver o pôr do sol no fim das tardes. Espero que um dia tenham tempo para sair, conversar, reencontrar os amigos, dividir os sorrisos e observar a linda vista que nos cerca. Espero que um dia consigam colocar essa burguesia nojenta no chinelo, para que possam ser vistos como seres pensantes e que sejam valorizados tal qual seus valores humanos, não financeiros. Espero que um dia possam morrer com a consciência tranquila que viveram – com dignidade, direitos e igualdade. Espero que se unam contra essa linha prepotente e cruel, para que passem por aqui e na hora de partir, notem que não serviram somente para trabalhar, suar, adoecer e morrer, sem mesmo viver.

“Que as classes dominantes tremam à ideia de uma revolução. Proletários de todo o mundo, uni-vos!”

TEMER JAMAIS!

Autora: Maria Isabel Trivilin

12998696_976595089083182_4555081510032254438_n.jpgUma jovem que precisa estudar para as disciplinas curriculares e a medonha prova do vestibular. Sem tempo algum para passear no parque e dormir uma tarde toda, sem condições de abandonar a rotina e fazer a diferença no mundo… Foi o que me disseram, mas como não penso apenas em minha existência, no “teste de aptidão” ridículo do fim do ano e no anseio de mostrar ao mundo superficial que conseguirei uma boa vaga, deixo os afazeres de lado e sigo para enfrentar mais uma batalha.

Após mais de mil e duzentos quilômetros, vinte e quatro horas de viagem, num fim de tarde ensolarado o bastante para fritar coxinhas no asfalto, estamos novamente na Capital Federal. Quando chego, logo me surpreendo com a quantidade de gente consciente, como a gente, disposta a lutar a favor da democracia e de um mundo em que sejam respeitados os mecanismos de voz da população da classe baixa, de periferia e pertencente aos grupos que ainda estão a margem da sociedade.

Os cartazes e frases expostos nos beirais das tendas e amarrados nas árvores frutíferas, me inspiraram. A quantidade de belos seres, vestindo aquele manto bonito, floresciam em meu jardim rubentes rosas que me lembravam a luta – não o luto. A primeira manifestação foi linda, uma passeata de mais de três quilômetros em direção ao Congresso Nacional. Apenas um aperitivo, um recado aos brasileiros: não terá golpe, está tendo luta.

Aquele primeiro momento já encheu meu íntimo de boas vibrações. As preocupações com os trabalhos que deixei nos Campos se foram sem um estralar de dedos. Eu estava participando de um momento histórico, não assistindo tudo do sofá da sala, pela visão distorcida do canal da família Marinho, não estava sendo manipulada e tinha certeza das informações, pois eu estava as vivenciando. Estava lá, lutando, sem banheiro limpo, sem o conforto de minha cama – aliás, o desconforto de uma barraca menor que os metros de minhas pernas. Sem tomar banho, por falta de local para tal, o cansaço me venceu, dormi.

O sol nasceu e com ele o grande dia: 17 de abril de 2016. Eu estava apreensiva, não sabia o que ocorreria, mas o que menos passava por minha mente era a aceitação do processo, confesso – eu e meu santo problema de ter ainda fé nas pessoas, em seus caracteres e bons sensos. Logo de manhã fomos a plenária, discutimos, nos fortalecemos e nos fardamos com os estímulos necessários para barrar o golpe.

O sol tentava esgotar nossas forças a medida que uma garrafa de água secava. No típico horário do arroz e feijão, tudo começaria. Meio dia, jovens revolucionários na tenda da União Nacional dos Estudantes. Tudo pronto, todos engajados e dispostos a correr alguns riscos em nome da democracia e da luta legítima, digna e justa que nos envolvia.

Cinco quilômetros de caminhada, trincas de fileiras fardadas e bem armadas com cassetetes e armas de fogo – não de palha. A caminhada foi longa, mas enriquecedora e prazerosa. Nas ruas, milhares de pessoas vermelhas e amarelas marchando, cantando e clamando por justiça. Lá estavam representantes reais dos brasileiros, gente trabalhadora, honesta, favelada, preta e linda. Lá estavam os trabalhadores rurais, sem terra, sem teto, sem medo. Quilombolas, kizombolas, índios e nativos de uma terra que carece de melhores germinadores.

Após a passeata, chegamos ao nosso destino. Exaustos, mas ainda com anseio e vontade de lutar: a comprovação disso estava nos olhos, eles brilhavam. Depois de algumas horas, em telões presentes na praça da esplanada dos ministérios, o show de horrores começou. Uma multidão sentada no quente asfalto brasiliense, esperava com aflição e euforia o resultado. Os senhores que nos deveriam representar, representar nossas famílias, crianças e jovens, se esqueceram de suas responsabilidades e resolveram rasgar verbalmente a constituição perante todos.

Os votos dos deputados em nome de suas PRÓPRIAS famílias evidenciaram o descaso e afronto a toda a população que se desvincula de suas árvores genealógicas. Evidenciaram a falta de ordenação impessoal na política, o que Sérgio Buarque já dizia em 1936, quando caracteriza um funcionário patrimonial como sendo um sujeito que mais se preocupa com suas próprias ambições e objetivos particulares, do que com as demandas e necessidades dos cidadãos.

Havia também alguns que falavam em nome de Deus, de forma completamente incoerente e insensata, já que a religião não deveria influenciar suas decisões enquanto parlamentares. A estes, tenho uma revelação a fazer: O ESTADO É LAICO, IRMÃOS! Se ainda não entendem isso, é compreensível que não consigam fundamentar um pedido e justificar coerentemente seus votos.

Mas eles não são os grandes culpados. Eles não querem ser políticos, querem enriquecer rapidamente e viram na política uma forma de fazê-lo. Não estão dispostos a governar pelo povo, não possuem conhecimento para isso e nem se dão ao trabalho de formular uma fala enganosa para tentar convencer alguém. Nós somos os reais culpados! Que tipo de deputado estamos elegendo? Os palermas nem se esforçam, apenas utilizam o nome de seus filhos e netos e a exaltação de seus quase dez mandatos para afrontar a democracia.

Para elevar ainda mais o nível, um certo ser – que ser humano não é – resolveu citar o nome de um coronel ditador. Jair Bolsonaro “mitando” de novo, envergonhando uma nação e colocando à prova o senso de “humanidade” de cada um. Sua fala se afasta da política e do momento em questão, é caso de internação, remédios à la tarja preta da mais preta que há. O senhor deputado – racista, fascista, homofóbico e preconceituoso, defensor da ditadura militar e da morte de “bandidos”, como se tivesse poder para julgar alguém – vota em homenagem ao coronel Ustra, o primeiro militar do regime a ser considerado, pela justiça, como torturador. O mesmo que torturou a presidenta em questão e tinha a prática de colocar ratos vivos nas vaginas das mulheres. Como pode um crápula deste defender um torturador em rede nacional e continuar impune? Como pode ainda ter seguidores, homens e mulheres votando a seu favor? É incompreensível, preocupante.

Para mais fundo, na beira do caldeirão de vermes, está um dos guias principais do processo ridículo e antidemocrático: o senhor presidente da câmara dos deputados, Eduardo Cunha, evangélico, crente, membro da igreja Assembléia de Deus e metido a político. Que conduz um processo alegando ser contra a corrupção, enquanto responde por mais de vinte processos de mesma ordem. É desta forma que o brasileiro pretende combater a corrupção, aliando-se a um corrupto de marca maior? Colocando no poder um salafrário, nojento, que gasta milhões no exterior em lojas de grife, restaurantes e hotéis cinco estrelas com o dinheiro público? Como pode um ser deste ainda estar na presidência na câmara defendendo um processo de impeachment? Mais um fato incompreensível, face da sociedade medíocre e hipócrita que vivemos.

Minhas indagações não param: como pode passar um processo de cassação que nem possui um crime de responsabilidade? Como podem se achar no direito de ferir o voto da população, tentando – através de pedaladas fiscais, que não são motivos suficientes para um possível impeachment – tirar do poder uma mulher, presidenta, que foi eleita democraticamente pelo povo? Isso não é democracia, irmãos, é golpe! Senhores pastores da bancada evangélica, isso não é justiça, seu Deus não prega isso.

Confesso que doeu na alma observar mulheres (inclusive mulheres negras), das poucas que tinham, votando a favor dessa barbaridade, que se efetuada, só trará regressos aos direitos das minorias. Felizmente haviam alguns deputados decentes, políticos íntegros que lideram pelo povo e, em alto e bom som, proclamaram o bonito “NÃO”, mesmo com toda a pressão dos calhordas que tentavam os calar.

Maria do Rosário – maravilhosa, como sempre –, Jean Wyllys e Jandira Feghali trouxeram esperança ao parlamento. O problema é que estavam em menor número, os crápulas conseguiram mais votos e avançaram na tentativa de golpe. Isso não significa, no entanto, que venceram a batalha, o golpe não passará, será combatido nas ruas, nas praças e nos espaços de formação de consciência.

Aquela votação foi um dos momentos mais tensos e emocionantes que já vivi, junto com a aflição daquelas horas intermináveis, comecei a observar o que me cercava, enquanto o sujo PSDBista se pronunciava. Em meio a tudo, ninguém deixava de vibrar, torcer e comemorar com os votos favoráveis. Ver um vendedor ambulante, sentado sobre uma caixa de isopor – que aliás, é o sustento de sua família – gritando: “democracia socialista”, encheu meu coração de coragem. O brilho contido nos olhos daquela gente sofrida, daqueles homens suados, judiados pelo sol e trabalho nas ruas, resumem a minha luta e o porquê de minha presença nesses espaços… O motivo de deixar a minha simpática casa para enfrentar um acampamento, que apesar de ser um dos ambientes mais solidários em que convivi, falta no conforto e na facilidade das ações rotineiras.

A dor da perda daquela votação se intensificou após tais observações. Doeu olhar ao redor e ver gente honesta lamentando pela injustiça e pelo medo do que aconteceria caso os imundos se empossassem. Foi triste ver gente que presenciou o golpe de 1964, temendo pela possibilidade de repetição da triste data.

Essa dor é minha, é sua, pertence a todos. É pesar nosso, não há como negar. Espero que após o circo apresentado, todos tenham enxergado a falta de integridade e preparo dos supostos “representantes”. Tenham entendido que, precisamos urgentemente de escolas, não as de muro alto e lajota opressora, mas àquelas da vida, que regem dignamente a existência e o motivo de estarmos aqui. Precisamos formar nosso povo, para que não votem em crápulas como aqueles, que desrespeitam a população e, se forem mais empoderados, tirarão muitos pães das mesas das famílias e muitos direitos populares já assegurados, aumentando a desigualdade social e os problemas que dela provém.

Já não basta trocarmos nossa vitalidade por dinheiro e sobrevivência? Não basta entregarmos a vida a um sistema que suga até nossos últimos suspiros enérgicos, precisamos ainda nos submeter às vontades e atrocidades desses ineptos?  Carecemos de uma nova cultura política, de formadores de opinião e seres mais humanos.

Aqueles homens e mulheres experientes, que tem muito o que contar sobre essa história lamentável, resumem a desigualdade provocada pelo capital financeiro e o meu sentimento de gratidão e emoção por notar que ainda temos força para lutar por uma realidade melhor. Aqueles trabalhadores, povo colorido, rico, diverso, que admiro até o último dedo, resumem o meu Brasil e a minha luta por uma sociedade igualitária, cheia de vida e livre de golpes, preconceitos e injustiças sociais.

Por fim, aos sujeitos que provocaram tudo isso, não desejo-lhes o mal (já são a representação clara disso), nem uma passagem para o inferno – pois nem o inferno os merecem – ou para o local da primeira sílaba do sobrenome do pilantra denominado “Eduardo”, esse lugar é bom demais para vocês. Apenas tenho pena, pois não terão muito tempo de comemoração, já que uma coisa é ter votos num congresso recheado de corruptos e outra é garantir votos nas urnas. Nada calará a voz do povo, continuaremos em luta e barraremos o golpe nas ruas!

NÃO TERÁ GOLPE DE NOVO, REAGE, REAGE MEU POVO!