Feliz dia das crianças!

Autora: Maria Isabel Trivilin

43766932_1844668802275802_1723765668047749120_nHoje é dia das crianças e sempre gostei de escrever alguma coisa. O ano passado eu lamentava pela reforma da PEC do fim do mundo. Escrever sempre foi, pra mim, esquecer, como afirma Pessoa. A literatura me ajuda a caminhar. Ultimamente, o choro engasgado, a angústia, o medo e o grito de desespero, parecem impedir qualquer sentimento criador que deveria virar esperança. Até que me lembrei da minha janela… Falar de infância é lembrar de muitas delas.

Em 2012 a vista era a pequena comunidade rural em que cresci. Em 2013 eu saí de casa pra fazer o ensino médio (graças às políticas públicas dos governos progressistas) e vi outra, morando sozinha aos 13 anos em uma cidade que mais parecia uma grande metrópole aos meus olhos. Desta, tive um significativo encontro com os movimentos sociais. Me entendi enquanto mulher, feminista e membro de uma classe que sofre. Conheci o Partido dos Trabalhadores e o defendi e defendo, com orgulho, ainda hoje. Ano passado eu me mudei de novo e agora vejo outra janela. Eu entrei na universidade. Sou a primeira da minha família a fazer um curso de nível superior. Fui criada por uma mãe solteira e uma avó – que em meio a uma realidade cruel, nunca me deixaram faltar – e pasmem: não sou fruto de uma fábrica de desajustados.

O texto pode parecer uma espécie de história egocêntrica, mas hoje me permiti lembrar (e lamentar) por uma infância que talvez seja interrompida. O fato é o seguinte: foi muito custoso para que hoje, em 2018, uma mulher pudesse falar publicamente; para que nos almoços de domingo, nós pudéssemos levantar a voz contra um padrasto eleitor do Bolsonaro. Mulheres e homens foram torturados e mortos, junto às suas crianças, durante a ditadura. Nem preciso dizer que, sem o movimento feminista, além do voto sequer poderíamos nos pronunciar sem um silenciamento brutal, não é?

Este ano escrevi uma etnografia sobre a minha janela. Sobre a janela que me deu inicialmente a vista pro mundo: a do meu quarto, na comunidade São João. Eu queria poder falar, na linguagem acadêmica, o quanto nós temos que olhar para janelas como essas: excluídas, isoladas, caipiras, analfabetas e trabalhadoras. Eu queria falar que a festa de São João é a expressão de um modo de vida muito mais complexo. Que há complexidade em um lugar simples, onde o discurso academicista não chega. É para o povo desta janela que eu direciono meu apelo.

Vi muitos se posicionando em favor do tal candidato, pessoas que me criaram e sempre passaram às crianças da comunidade um senso de humanidade. Eu não acho que a universidade nos ensine coisa mais importante e refinada que a que vocês passavam, não acho que o conhecimento formal salvará o mundo e não acho que um vocabulário erudito diga algo sobre a sabedoria. Existem muitos conhecimentos. Mas o processo de enganação e alienação existe e precisamos encará-lo: o que dizem sobre o PT, que acabou por criar um antipetismo demoníaco (a ponto de um padre da cidade acusar o partido de satanismo), não pode nos fazer concordar com um discurso de ódio, intolerância e extermínio, pois isso é também concordar com a morte de produtos que vocês mesmo criaram, inclusive eu. Ser conivente à tortura, ao preconceito e à irresponsabilidade e falta de capacidade técnica e intelectual de conduzir o país é nos fazer retroceder em um caminho que foi construído com muito sangue.

Não manchem suas mãos. Estou falando de pessoas com a mão calejada pelo trabalho no campo, de luta e coragem numa comunidade que sempre foi exemplo em comunhão e reciprocidade, e que agora não pode ser perdida por uma construção doentia de aversão a um partido. O antipetismo não pode ser mais forte que a nossa noção de dignidade e sensibilidade com o Outro.

Façamos um exercício pelo respeito e pela existência da maioria da população que resiste nesse país. O mundo nunca será melhor, mais seguro e solidário com a pena de morte e o porte de armas, pois a única capaz de se colocar efetivamente em favor do povo e contra a corrupção chama-se educação. É por isso que precisamos lutar.

Defendamos o que é nosso, o que é do nosso povo. E para isso, é preciso deixar de lado as hesitações elitistas (já que nem elite são) e votar no adversário de um candidato despreparado e violento, de modo a respeitar a sabedoria popular e lutar pela diminuição das injustiças e desigualdades sociais.

Votar no PT, mesmo para os que não concordam com seu projeto, tornou-se uma necessidade, se o objetivo for preservar a democracia. Transcende a sua lógica e as suas cores, estamos falando de um Brasil que está sendo ameaçado e colocado à morte.

Sobrevivemos mancando há muito tempo. A realidade já parecia torturadora antes, até que a tortura na pele tornou-se um possível encontro futuro. É amedrontador. O fascismo nos persegue há muito, mas seremos maiores. Só com Haddad é possível, nesse momento, ter esperança. Se ter infância já é um privilégio, com a vitória de um representante fascista elas serão postas a trabalhar ainda mais cedo nos campos que findarão sua própria morte.

“Bolsonaro e sua corja oferecem a todos um lindo dia, junto ao fim da esperança, do sonho, do futuro e do simples direito de ser criança”.

Anúncios

“É que Narciso acha feio o que não é espelho”

Autora: Maria Isabel Trivilin

Michelangelo_Caravaggio_065

Narciso é um homem normal. Um homem social.
Um desses que dormem, acordam e vivem com uma violência “natural”
A diferença é que Narciso possui um belo punhal
Ele não acha feio o que é diferente, diferente é gosto musical.
Acha feio o piercing do vizinho, o homem tatuado da esquina e a mini saia da vadia que namorou um dia.
Mas são casos diferentes…
Ele acha feio tudo que não ordena, que foge à ordem, que se difere.
Que não fere, mas nasce ferido, se o corpo for acompanhado de um gênero definido.

Narciso é um homem de bem.
Vai à igreja aos domingos, pede perdão ao seu Deus e volta flutuando em sua bela – e falsa – alma plácida
Ele só faz o que é certo, defende a moral, os costumes bons
Os direitos de seus filhos viverem num lugar com mais decência
Com menos rebeldia, com mais obediência
Com mais boca calada de quem nasceu pra obedecer.
Ele só odeia LGBTs, negros e mulheres
– e uma lista infinda de gente que não tolera, que o nascimento incomoda –
Embora diga sobre as últimas que não, a vizinha vagabunda e fofoqueira já chamou a polícia de freguesa, dizendo que o lugar de Narciso é na prisão.

Narciso tem dois filhos: Maria e João, e sua esposa Rosa na beira do fogão.
Uma menina de dezoito anos que prepara o enxoval para o casamento
Porque se está pensando em transar, então vai ter que casar.
Menina do lar, que não precisa estudar, porque lavar, passar e cozinhar é o único caminho a trilhar.
E um menino de cinco que ainda vai surpreender Narciso.
Que nasceu feito ser maior inimigo.
Que nasceu pra iluminar. Pra fazer brilhar um amor que não tem a intenção de ninguém machucar.

Ele acorda as seis, pega a condução e vai…
Enquanto as engrenagens trabalham a vida acontece: folhas caem, pássaros cantam.
O pôr do sol é bonito, mas vive sem espectadores seguindo
A família não se reúne
Não conversam, não cantam, nunca viram o mar.
O circuito de luz se apaga e, bom… Menos uma boca pra sustentar.
O moinho da vida gira e Narciso continua a apertar o botão.
Sai no início da noite, por um passeio esfumaçado que muito diz sobre seus passos forçados
Mas Narciso se conforma, porque o trabalho edifica o homem e ele é homem trabalhador.
Chega em casa, aperta outro botão e xinga os comunistas na televisão: “Protestando? Vão trabalhar! – exclama sem perdão.

Narciso é homem bom. Não faz mal a ninguém. Mas se for um baitola andando pela rua, que mude o caminho, porque “viado” não é gente de bem.
Nem é gente. É doente.
Duas meninas se beijando? Se não for em seu quarto, não tem perdão.
Gay não é gente, é aberração.

Narciso é homem de bem. Só não suporta olhar no espelho e ver que nem mais alma tem.
Ele jura que é bom, só deu com aquela barra de ferro na cabeça do filho adolescente, que resolveu aparecer em casa dizendo que ama um barbado de voz delicada
“Que escolha mais desgraçada, João?”
Mas Narciso fez um favor pra humanidade, porque gay é aberração.

Volta à igreja domingo de peito estufado: em nome de Deus, fez um favor pra nação
De todos os pecados do mundo, esses ultrapassam o limite da decência e da razão.
Trair a mulher pode; dar uns supetões no fim do expediente, tudo bem…
Mas é só pra ela ficar esperta e não causar confusão
Um olho roxo em Rosa faz parte da tradição: mulher que não faz janta certa, é pau e porrada que leva ao chão.

Narciso é uma mentira disfarçada em covarde armadura destroçada
Narciso tem medo de se olhar no espelho; não suporta a diferença, não suporta a transgressão.
Por quê? Porque o Outro que ele repudia – e as violências que a ele provoca –  diz muito sobre si mesmo; porque os defeitos que vê no outro, na verdade, são seus.
Porque se for mulher, é de um batom vermelho e de uma esquina escura que precisa: um estupro pedido e uma vida acabada
Porque o Outro, se for negro, tem gatilho apontado todo dia, no meio da testa, pra entender de que ódio se trata
Porque quando a barra de ferro não acerta, vem em forma de intolerância disfarçada, que jura de pé junto que está orando por salvação
Que mesmo estando num poço regado à ódio e discriminação, tem até alguns amigos que são

Narciso, na verdade, não se suporta. Não suporta olhar no espelho.
Não há amor por si mesmo.
Sua veneração pela própria imagem é fachada frágil e rechaçada.
Mas Narciso não é o único, não
E pasmem: ele não destrói os sonhos de uma multidão de gente, aguerrida e consciente
Que afronta a heternomatividade patriarcal com uma faixa de liberdade que mata um Narciso por dia, sem qualquer falsa oração
Não por ódio ou por repressão, mas por viver com dignidade e orgulho de seu espelho de criação

Narciso bate em uma rosa, mas jamais conseguirá conter a primavera toda
Narciso e seu espelho são tão pequenos que se tornam
n-a-d-a
perto da chama revolucionária que ousa, fala e clama a satisfação
Orgulho e expressão de alguém que, sendo o Outro de uma sociedade inteira,
Ama
Resiste
Luta
Para ser um dia a mais, viva e florida,
Um grito de revolta, um exemplo de rebelião.
Um Outro em contínua expressão de coragem contra a desigualdade
Uma mulher em eterna e diária luta por igualdade e direito de subversão.

 

 

 

8 de março: sobre defender a vida de todas nós

Autora: Maria Isabel Trivilin

oieSabe o que é mais bonito que flores no dia da mulher? Que felicitações e sorrisos cândidos? É lutar como uma e mostrar a outras mulheres a importância de se defender os ideais de igualdade.

Neste dia, no alto de minha insignificância feminina (e feminista), gostaria de direcionar algumas palavras às mães e pais que possuem filhas, pessoas do gênero feminino, mulher nesta terra de Deus: parem de encorajar vossas filhas a encontrar um “bom” namorado/marido, como se isso fosse uma necessidade; parem de dizer que é preciso casar, ter filhos e aprender os serviços domésticos para servir seu par. Não, isso não é um problema particular de cada grupo ligado por um laço consanguíneo ou por todas as outras formas de família que existem, torna-se um problema social quando passa a ser uma reivindicação pela vida e pela liberdade das mulheres.

É fácil afirmarmos que somos contra a cultura do estupro, a violência doméstica e os tantos casos de feminicídio se encarceramos nossas próprias filhas a sempre dependerem do poder masculino. Ainda que pareça exagero para alguns, os  primeiros tentáculos da opressão aparecem nesses pequenos abusos e obrigações. Por que não encorajá-las a serem os próprios maridos ricos, para não precisarem de um? Resposta simples: porque isso desestruturaria o sistema patriarcal; porque sem ter quem se acorrente, as correntes se tornam inúteis e quem as comanda também. Sem mercadoria feminina o “digníssimo” modo de produção vigente perderia pontos cruciais. Não estou dizendo que essa riqueza nos salvará, pois sabemos que classe social, apesar de minimizar, não acaba com a opressão que sofremos, mas certamente se as mulheres conhecessem sua capacidade de autonomia, viveriam melhor e poderiam até encontrar algo leve, saudável, não guiado por padrões estereotipados e status sociais, mas por coisas que o dinheiro não compra e resiste ao tempo, às mudanças e aos enfrentamentos da vida diária: o amor e a dignidade. Talvez se fossem encorajadas a ser o que quisessem por si, não estariam presas em ondas de exploração sem perceber; arraigadas num arcabouço superficial que tem sua origem na desigualdade, na intolerância e numa espécie de seleção doentia!

Há coisa pior que ditar quem é bom e quem é ruim pelo sobrenome que carrega (vejam, o que não necessariamente significa deter os meios de produção!!!), pelos alqueires que o pai tem? Sabemos que o capitalismo faz isso conosco, mas realmente é preciso que até os pais entreguem suas filhas em mãos afortunadas (seja por achar que terá uma vida melhor ou para tirar um fardo das costas) em nome desses preceitos?

Talvez se vocês encorajassem suas filhas a quererem mais da vida, elas não se contentariam com tão pouco. Não há nada de errado em querer um marido, dois filhos, um cachorro e um jardim florido ou escolher não trabalhar e ser dona de casa, desde que isso não seja imposição (no entanto, sabemos que o cerne é um mando velado e, com pesar, poderoso). O problema é a criarem, desde o seu nascimento, para que sejam essa esposa de um marido capaz de sustentá-la. Para que sejam coadjuvantes. Para que sejam acompanhantes. Para que nem sequer cogitem a possibilidade de viverem sem um homem. Para que sejam a “mulher” de não sei quem. Para que sejam anuladas e secundarizadas.

O resultado de mulheres que resolvem não ter um casamento dessa estirpe ou não ter um casamento, mas ser seu próprio instrumento de subversão, é que são estigmatizadas, malquistas e empurradas o tempo todo para as noções de que é preciso encontrar um namoradinho pra preencher o vazio. Eu mesma não sei quantas vezes, só nesse ano que agora adentra seu terceiro mês, já me disseram pra encontrar um rapazote bom pra namorar, pra ter cuidado pra não ficar “encalhada”. O vazio tem que ser preenchido primeiro por você, mulher! Por seu prazer, por sua vontade, por seu orgasmo de sentir que está mudando algo. Por seu anseio de mudar o mundo.

A verdade é que ao colocar como padrão de vida feminina casar bem, vocês estão abrindo margem para que ela seja violentada amanhã e aceite – já que não terá profissão ou mesmo que tenha, não saberá lidar com a vida sozinha e sempre sentirá falta de uma figura masculina que diga o que tem de fazer; estão enclausurando-a numa visão tão pequena e sem perspectivas de coisas grandiosas – repito, talvez a grande perspectiva possa ser se casar e viver feliz cuidando dos filhos, desde que isso não seja uma OBRIGAÇÃO. É uma violência mostrar que só há essa opção, e principalmente, que esse é o ápice.

Observo todos os dias que, mesmo sem perceberem, meninas vão moldando todos os seus desejos e até mesmo seus gostos (começam a achar os mais bonitinhos de acordo com os padrões econômicos e superficiais) exatamente por serem fruto dessa imposição. Começam a se interessar somente por estes que fazem o tipo de “bom pra casar”. Começam a se comportar como meninas que os atraem, começam a seguir um modelo de beleza cada vez mais igual e carente de cor.

Talvez se parassem de limitar a visão das mulheres, se não a colocassem como serventes de um moço de boa linhagem, haveríamos de viver, um dia, em um mundo que matasse menos e lutasse mais. Haveríamos de viver num lugar com mais igualdade e justiça social.

Seria bom se passassem a agir como seres humanos, só pra variar. Essa coisa de unir o útil ao agradável é tão oca, alienada e emburrecida, não só por fazerem crer que é melhor um que seja bom, bonito e rico; mas por dizer, às claras, que a solução para unir o “útil” ao “agradável” sempre gira em torno não só do capital, mas de um capital que seja MASCULINO, como se não existisse felicidade e um mundo inteiro para além de rapazes e suas considerações.

As pessoas repetem jargões como esses como se fossem marchinhas do Chico de carnaval, como se fosse bonito. É tão difícil entender que nossas relações pessoais, conjugais, sexuais deveriam nascer no interesse humano e não no econômico (créditos aqui ao sistema capitalista, por óbvio), em padrões mecanicamente criados para que até os gostos femininos sejam construídos e moldados?

Queridas mamães – eu tento dizer pais também, mas sabemos que na maioria dos casos são mães que criam os filhos e tenho mais fé nas mulheres pra essa missão, embora a ajuda dos homens seja essencial – aprendam a criar suas filhas para que elas sobrevivam. Permitam que elas sejam livres e felizes. Casada, solteira, com três filhos ou sem nenhum. Que seja uma escolha e não uma imposição. Que não doa, que não sofra, que não tenha de ouvir que é preciso um namorado para afastar a solidão e, que, no auge de seus 19 anos, não ter um é caminhar rumo ao encalhamento. Permita que ela tenha orgulho de ser quem é, mesmo se não seguir a doente linha da heteronormatividade. Ajude-as a criar asas para enfrentar esse mundo opressivo, patriarcalista e misógino com a garra de uma mulher. Isso é defender as nossas vidas, a vida das mulheres.

Feliz dia de luta a todas nós!

 

Conhecedores da realidade de gabinete

Autora: Maria Isabel Trivilin

IMG_20171215_201701A gente dorme e acorda e o tempo se encurta cada vez mais. Ficamos cada dia mais cansados e até o hábito de escrever e publicar algo vai sendo engolido pela rotina. Ao tirar um tempo pra isso, a lágrima vem junto. A conjuntura é dura e os retrocessos diários. Querem a morte da classe trabalhadora!

Pessoas que nunca se preocuparam com a situação do país, que nunca olharam para além de seus próprios umbigos, de repente se tornam defensores da pátria e vão às ruas fantasiados de verde e amarelo – guiados pela grande mídia, que nada mais faz que servir ao capital – para clamarem pelo fim da corrupção. Bateram panelas, pediram o impeachment de uma mulher sem crime de responsabilidade e – PASMEM –conseguiram! Hoje, todos os encabeçadores do projeto carregam em suas carcaças conservadoras e reacionárias, inúmeros processos envolvendo tudo aquilo que “abominavam”, tendo não só acusações de corrupção, mas PROVAS ESCRACHADAS com direito à áudio e mala de dinheiro. Porém, o corrupto principal, aquele que investigam e querem prender a todo custo, ainda é Lula. Mesmo sem uma prova sequer, é Lula que querem destruir e que todos chamam de “bandido”.

Nas universidades, o discurso de muitos é que somente a “linguagem culta” nos fará transformar o mundo (risos de extremo nervoso). O ódio entalado na garganta se faz presente, talvez pelo simples fato de que as pessoas que sempre me inspiraram a querer entender o mundo nem sabem o que significa a palavra “culta”, mas possuem muito mais culhão, inteligência e conhecimento sobre a realidade social que esses pseudo-sábios-doutores que se privam às cátedras universitárias.

Tudo isso, para dizer que agora, a nova da vez é o fim da gratuidade das universidades. A vontade de gritar que a culpa é dos paneleiros que retiraram um governo progressista do poder à coronhadas, é grande. Mas não não dá pra esquecer que muito trabalhador alienado estavam ali, cavando sua própria cova e exaltando o que o capitalismo faz conosco: tenta nos fazer crer e lutar contra a nossa gente; contra a classe que somos. Faz com que nossos sonhos se restrinjam a pertencer a uma classe média nojenta, atrasada, que sequer existe.

“Fim da universidade pública”, eis o estopim de algo que já deveria ter nos revoltado há tempos. Era previsível, por óbvio, que após tantas reformas destrutivas, escravistas e excludentes, tentariam acabar com os espaços mais poderosos que o trabalhador ainda possui. Pelo caráter emancipatório que a educação carrega, sabemos que há muito  (desde 2003 para ser mais exata) a classe dominante treme ao ver o pobre, negro e periférico adentrando às universidades. A galera finge que não vê, mas eu sei de onde isso vem e sou fruto dessa onda (que ainda é mais criticada que a própria direita nos monopólios da sabedoria), além do mais, entendo que seja difícil engolir que quem faz revolução, pelo menos nesse momento, é quem tira o povo da extrema miséria e permite que filhos de pedreiros e empregadas domésticas se tornem doutores (ou de cabeleireiras, por que não?) Se concordo que tudo que foi feito é pouco para uma revolução? Claro que sim, pouquíssimo. Mas foram as únicas formas que chegaram ao povo, que se concretizaram na realidade através de oportunidades e direitos, diferente dos lindos discursos dos mestres e das ideias perfeitas, que nunca saem da teoria e nem chegam aos ouvidos da classe interessada.

O fim da universidade pública é o fim de muitos sonhos. É encher as academias só com gente endinheirada (quem tem dinheiro estuda; quem não tem, só trabalha), e fazer com o que pobre ocupe o seu verdadeiro lugar, nesse sistema egoísta: bem longe dos espaços de formação e de qualquer instrumento que possa lhe fazer acordar e se rebelar; que lhe aproxime da luz do conhecimento e faça sentir orgulho de ser quem é e da luta que empreende. O fim da gratuidade é o brado forte que a direita vem carregando, desde que um senhor nordestino tão criminalizado assumiu o poder; é o grito contido de uma classe que desde o impeachment vem mostrando sua fúria e seu anseio por destruir tudo que traz a classe trabalhadora para os espaços de formulação e transformação.

No entanto, nem mesmo os pensadores nossos parecem ter compreensão deste processo. Antes da linguagem culta, formal, tem gente que conhece a fome. Isso faz muita diferença na experiência e no olhar que desenvolvemos em relação ao mundo. O fim da universidade pública é o fim da minha presença, é o fim de muitas tentativas de subversão e de chamas contestadoras. Nossa presença na universidade incomoda e a luta é para que continuemos desestruturando as elitistas ordens sociais. Não deixemos que essa onda fascista e reacionária cresça e que os sonhos dos trabalhadores sejam ceifados pela lógica neoliberal que hoje se instaura. Lutemos com armas realmente eficazes, com leitura, força e coragem. É preciso se reinventar nesse momento e entender que o projeto de outro mundo possível não será implementado em nossos lindos sonhos de verão – precisamos de políticas e ações reais, que façam a diferença na vida do povo.

Ler nos faz entender o mundo, mas a vivência da classe trabalhadora, a dor da desigualdade, da opressão e até a fome, nos faz conhecê-lo com igual legitimidade. Restringir militâncias a artigos científicos e falas em espaços privilegiados, em que só ouvem pessoas igualmente privilegiadas (como eu, que estou agora tendo acesso à universidade – e que possuem, ao mesmo tempo, a responsabilidade de aproveitar a raríssima oportunidade de ter acesso a um conhecimento tão restrito), não faz diferença na vida de quem não tem tempo pra pensar, quando o despertador aponta que é hora de novamente trabalhar. O poder intelectual talvez faz com que as pessoas esqueçam o real significado da classe dominada: os operários, o suor no rosto e as linhas de expressão que gritam. Talvez tenham se esquecido que, infelizmente, a maioria da população desse país não tem acesso a Marx, e muitos, nem a uma refeição decente.

Ler o mundo é preciso, mas não conhecemo-lo somente através de livros, embora eles sejam essenciais. Se vangloriar por uma militância de discurso que nunca deixará de ser discurso, de falas que nunca deixarão de ser falas, nem chegarão aos ouvidos nossos, parece ser para muitos a forma mais revolucionária de encarar o mundo e disseminar nossos nobres ideais. Rejeito, minha leitura e luta são outras, amar e mudar as coisas me interessa bem mais.

Filho da puta

tent

       Ouvi dizer que perdido é filho de puta em pleno dia dos pais.

Prazer, puta.
E olha que nem pretendo ter
Mas quando meu filho nascer
Direi a ele quem é a puta que as pessoas dizem ser

Esse ditado é engraçado
Versos roubados de um machista desgraçado
Vejam só, puta minha mãe não é
Mas sempre fiquei perdida no dia dos pais de fé
Pela presença que me faltou
Pelo primeiro dia de aula que sem meus materiais ele me deixou
Pelo pai que não me criou
Tô perdida é pelo homem que me rejeitou
Mas ainda ousam dizer que a culpa é da puta que me pariu e não da porrada que a arrebentou

Tô mais perdida que filho de um boçal em dia de invenção capitalista, modelo de família burguês de comercial moralista
De pai que resolveu abortar sem um dedo a ele apontar,
Tampouco uma lei e bancada evangélica pra criminalizar
De pai que não está pronto para criar
Ou não está afim de assumir o orgasmo que depois tem muito a clamar,
Que estende a mão cobrando a ele ajudar

Tô mais perdida que filho de um pai que só queria violentar
Daqueles que dizem que é preciso de um homem pra reavivar
A puta que me criou me ensinou que macho algum me faz a cabeça abaixar
Que o caminho é cruel, mas é pela vida das mulheres que eu continuo a lutar

Só queria por fim dizer
Que não sou, mas talvez possa ser
Que a puta que me pariu me fez entender
Que o sistema é dos homens, mas a vida eu posso fazer

Tô mais perdida que filho sem pai em pleno dia dos pais
Perdida pelo homem que foi viver a vida, que a sociedade não penalizou
Embora condene mulher que não quer ter filhos, tolerando aqueles que mesmo tendo, nunca criou
Tô perdida não pela mãe, pela julgada barriga que me carregou
Perdida hoje estou, não como filha de puta, mas como de um pai que convenientemente me abandonou.

Escola de um partido só

Autora: Maria Isabel Trivilin

ARTIGO-ESCOLA-SEM-PARTIDO-1.jpg

O projeto de lei “Escola sem partido”, proposto pelo senador Magno Malta, a partir da afirmação que muitos professores tentam doutrinar os alunos com uma ideologia ligada à esquerda brasileira, traz em essência uma ideia que obriga a neutralidade do professor em classe, o proibindo de expôr opiniões ideológicas sobre qualquer assunto. Entretanto, antes mesmo da democratização do ensino, observa-se a impossibilidade de uma escola sem ideologia – assim como uma igreja sem ideologia e até um lar sem ideologia. Nesse sentido, é importante compreender a necessidade de apresentar, no ambiente escolar, vários caminhos de pensamento que permitam aos jovens pensar e escolher aquele que mais se assemelha à sua visão de mundo.

A escola, pelo menos em tese, tem como principal função social formar cidadãos conscientes, que sejam capazes de coerentemente formular seu pensamento e questionar as inverdades absolutas do mundo – para que estejam preparados não só para uma prova de vestibular, mas para as inúmeras situações da vida. Exatamente por isso, errado seria se o professor expusesse ao aluno apenas um lado da história, mas validar um projeto que retira o método de ensino a partir de visões ideológicas, além de impossível, descartaria a principal função da escola, já que, após o término do período ditatorial brasileiro, faz parte de sua estrutura permitir que o aluno pense e tenha contato com as diferentes ideias existentes.

Além disso, muito se questiona sobre as reais motivações do senador com a proposta, já que por defender a neutralidade plena, espera-se que ele também tenha tal posição. No entanto, seu posicionamento político partidário, juntamente com os apoiadores do projeto, ligado à direita, faz com que desconfia-se de uma posição imparcial. Mais parece uma oposição de forças e uma tentativa de guiar os alunos a um campo só: o da direita reacionária e conservadora.

Por reconhecer a impossibilidade de uma escola sem partido, o projeto torna-se de forma quase nítida, uma tentativa de doutrinação forçada, através de mordaças, à ideologia de direita – retirando a liberdade de expressão e censurando o conhecimento, a fim de que os alunos não tenham acesso à todas as informações históricas e sociais e não debatam sobre as barbaridades que ocorrem por todo o mundo. Desta forma, é importante salientar que a proposta de imparcialidade não funciona, já que vai contra as próprias diretrizes democráticas da escola e a seu caráter social de formação. Assim, ao invés de sem partido, é essencial que o professor tenha a autonomia – sem vigilância, coerção e monitoramento opressor – de apresentar aos alunos diversas visões ideológicas, que cessem a ignorância e lhes concedam a liberdade de escolher à qual mais se identifica.

Se a escola não tem como princípio fundamental emancipar seus alunos, através do pensamento crítico, não há de fato uma escola. A educação precisa ser libertadora e empoderadora!

“O aluno na escola tem direito de pensar! Escola sem partido é ditadura militar!”

NÃO AO PL DA MORDAÇA!!!

MACHISMO MATA – inclusive no réveillon

Autora: Maria Isabel Trivilin

elemataResolvi me sentar no beiral de minha alta casa a fim de observar a cidade e tentar entender essa triste e quase morta sociedade. O beiral era alto, como um grande muro, a primeira casa que avistei era de uma jovem de menos de vinte anos. Ela me enxergou e seu olhar abriu-me as portas de sua alma, como se eu pudesse conhecer toda a sua história a medida em que as palavras saíam da silenciosa boca abrilhantada com brilho cor-de-mel:

Camila acordou, tomou café e ligou a televisão para assistir os desastres do dia. Na rede Golpe, se deparou com uma notícia que fez arder sua própria espinha – e o resto de alma que ela ainda possuía. Um pai, desnorteado por não poder ver mais o filho – já que judicialmente ele foi proibido após violentar sexualmente a criança – por culpar a mãe e sentir por ela um ódio imenso, mata o filho, a ex-esposa e mais dez pessoas da família durante festa de ano novo. Para além disso, a matéria dizia que ele havia deixado cartas para que sua lógica doentio se perpetuasse, já que afirmava que todas as feministas mereciam morrer por serem vagabundas, ardilosas e por inspirarem outras vadias a fazer o mesmo que a jovem mulher de Campinas fez: afastar um pai perigoso, que estuprou o próprio filho, para que ele não o machucasse mais. E terminava as barbaridades dizendo que a responsabilidade desses pais seria acabar com todas essas mulheres e suas famílias, para garantirem a justiça, a dignidade e a honra no leito de sua morte.

Camila ficou assustada e mais pálida que os copos de leite do jardim de sua avó. Ora bolas, ela também era uma vadia. Na verdade, sem entender, era assim que a chamavam. Certa vez, a jovem estava indo ao supermercado, cerca de seis horas da tarde, quando se deparou com um homem que a parou cruelmente e a violentou, marcando sua vida sofrida para sempre. Da violência, surgiu Augusto: mais um filho do estupro. Como não podia nem pensar em aborto, criou o menino e no último dia 10 ele completou dois anos. Quando a vila ficou sabendo, Camila se ferrou. A chamaram de nomes horrorosos e, por óbvio, a culparam por estar naquele horário de shorts curto perambulando pela rua… Até porque, uma menina decente de 15 anos não sairia as seis horas da tarde sozinha de casa com vestimentas indecentes, isso notoriamente é comportamento de mulher que merece e está pedindo para ser estuprada.

Camila hoje tem apenas dezessete anos e está assustada com a carta do ex marido lunático, já que se a ideia se alastrar, muito provavelmente ela também será morta por sua inevitável condição inferior de mulher vadia. Se virar epidemia, talvez a amaldiçoada espécie desapareça, já que aos olhos da doente sociedade, todas as mulheres em alguém ponto foram, são ou serão vadias.

Camila se deitou e chorou a noite toda por lembrar da violência que sofrera – cicatrizes que vinham à tona todas as vezes que olhava para o doce Augusto, que apesar de não ter culpa de nada, sem saber, era um filho do crime. Camila sentiu medo de morrer novamente, mas desta vez pra sempre, já que como o assassino registrou, “as mulheres têm medo de morrer com pouca idade” – os homens não, pois são fortes, machos, robustos e corajosos.

Sua história tocou meu coração, pois sinto na pele o quão difícil deve ser a vida de Camila. Sei o quanto a opressão dói, o quanto tememos por um futuro próximo de estupro, violência sexista ou uma vida inteira encarcerada em raízes patriarcais. Medo ainda maior por ser feminista e o alvo mais claro, a culpada suprema pela desordem da humanidade: mulheres que se rebelam e são chamadas de vadias até a morte por terem coragem de enfrentar seus opressores.

Notícias como essas apenas aumentam o clamor de minha luta, mas de fato é tormentador pensar que ainda há gente que diga que machismo não machuca, não mata, quiçá existe. Esse coitado de Campinas que matou doze pessoas numa festa de réveillon por ódio e sede de justiças às vadias, deixou-nos cartas que dizem por si só. Que clamam sozinhas o que protesto em todas as manifestações populares que, apesar das inúmeras críticas, foram as grandes responsáveis por garantirem o direito ao voto feminino e aos demais direitos básicos já conquistados. As cartas evidenciam fortemente o discurso de ódio contra as mulheres, chegando até a tragédia que as matou.

O mais doloroso é ver meninos jovens já consumidos pela triste construção sexista, proliferando bobagens e compartilhando mensagens que defendem ações como estas, em que mulheres são mortas e estupradas por não obedecerem as ordens de seus homens. O mais triste é ver que o conteúdo sórdido presente na carta do assassino, apesar de ainda chocar, está presente em várias timelines Facebook à fora, com likes supremos sem que ninguém mova-se para impedir que tais catástrofes ainda aconteçam.

Sentada naquele beiral, pude refletir muito sobre o quanto o machismo mata. Mata infâncias marcadas por violência sexual, moral e física; mata meninas estupradas por tios, padrastos e até pais; mata sonhos e cria obstáculos impostos ao gênero; mata adolescentes por saírem de shorts curto na rua e ainda terem que ouvir que mereciam ser estupradas. Mata esposas que querem se separar, mas não podem por serem propriedade do homem; mata realizações pessoais que são impedidas pelo marido não deixá-la sair sozinha na rua, nem trabalhar fora – até porque, lugar de mulher é em casa, na cozinha, enclausurada no espaço privado. Mata mais de 400 mulheres por dia através de agressão e violência doméstica, mesmo com a lei maria da penha – ou “vadia da penha”, como dizia o injustiçado pai de Campinas – em vigor desde 2006. Mata, a cada 11 minutos, uma mulher por violência sexual na justa pátria amada Brasil. Mata até crianças, mata menino, mais bem menina. Mata esposa, ex-esposa (que já é mais comum na TV que comercial de margarina) e mata também família inteira durante o réveillon. Ou melhor, família inteira de vadias durante o réveillon.

É importante que ressaltemos um ponto: a culpa destas mortes não é só do pobre – em seu significado real – autor do crime, que vingou com as próprias mãos “as dores que as vadias o provocaram”, já que ele representou vários homens que possuem o mesmo desejo. A culpa é voltada a todos que simpatizam com seu sórdido discurso de ódio às mulheres e que disseram que a ex-esposa era a grande culpada por tê-lo afastado do filho que ele tanto amava – e que mesmo assim o matou. A culpa dessas mortes é sua, que fica criticando o movimento feminista sem compreender sua função social de impedir que mais mortes trágicas como essas ocorram sob o manto ensanguentado do patriarcado. A morte desse menino, de apenas 8 anos, de sua mãe e de mais dez “vadias” da família, é integralmente de todos que apoiam esse discurso e não compreendem que tornou-se uma necessidade lutar pelos direitos da mulher em uma conjuntura que apoia e assiste tantas demonstrações de desigualdade de gênero.

Como disse Ana Julia, no famoso discurso sobre as ocupações estudantis, a todos os propagadores de mensagens de ódio contra mulheres feministas, mães e ativistas da vida, que acham que todas devem morrer por serem mulheres, olhem para suas mãos límpidas e belas: elas estão manchadas de sangue. Sangue de doze pessoas e de milhares de mulheres que morrem por ano por conta desse mesmo discurso opressor, machista, sexista e que por tão naturalizado resulta até em mortes de almas e vidas.

A luta feminista é por Camila, por Maria, por todas que sofrem, lutam e resistem. Sentada naquele alto muro, fiquei me perguntando quantos inocentes ainda precisarão morrer em nome dessa opressão cruel. Estou aqui pelas mortes de tantas mulheres, crianças e jovens pelo sistema que você defende. Por fim, segundo o assassino, o Feminismo está destruindo famílias e vidas, mas nunca houve notícia de feminista entrando em uma casa e matando todos da família. Reafirmo: o Feminismo nunca matou ninguém, já o machismo? Esse mata todos os dias!

“Eu morro por justiça, dignidade, honra e pelo meu direito de ser pai!” disse o assassino.

Discurso bonito, não? Eu sim morro por justiça, dignidade, honra, liberdade e pelo meu direito de ser mulher, de viver e sobreviver em um mundo em que pessoas não são taxadas por seu gênero, mas pelo que realmente são.

 

Relato de um favelado

Autora: Mayara Strada

nossaliCarioca, morador de favela, pobre, 27 anos, filho de empregada doméstica e jardineiro. Casado, sem estudo, pedreiro, anônimo.

Apesar das dificuldades, cresci com amor. Meu amigo Fábio não teve a mesma sorte, o pai traficava, agredia-lhe juntamente com sua família e, por fim, foi morto pela polícia militar. Mas fazer o que, né? Ele sustentava a família.

Lembro-me como se fosse hoje, tínhamos dez anos e ele era meu melhor amigo, talvez o único. Sua mãe arrumou um emprego como faxineira, os patrões não gostavam muito dela, mas que escolha tia Jurema tinha? No início eu ajudava-lhe a cuidar de seus dois irmãos mais novos e pouco tempo depois tivemos que começar a trabalhar no sinaleiro, vendendo bala mesmo.

Aos onze anos trocamos os carrinhos de madeira, feitos por nós mesmos, pelo trabalho, não era muito lucrativo, mas já ajudava. Lá em casa comíamos um pedaço de pão pela manhã e apenas uma breve “jantinha” no fim do dia, já que papai e mamãe saíam antes do sol nascer e só voltavam no começo da noite. Quando chegava meio-dia meu estômago roncava, mas com as moedinhas que eu ganhava não era possível nem comprar um lanchinho.

Aos doze saí da escola, escola não dava retorno. Aos treze vi Fábio morrer, vítima de uma bala cruzada em um tiroteio no morro. Parte de mim também morrera. Dos quatorze aos dezoito catei papelão, limpei chão de restaurante, fui garçom e cozinheiro.

Aos dezenove meus pais morreram, dói até hoje saber que não pude fazer nada. Estavam voltando para casa quando foram assaltados e, como não possuíam nem um tostão na carteira, os ladrões, com raiva, os mataram.

Aos vinte anos casei, ou melhor, me juntei com a Rosa. Morávamos no barraco dos meus pais, minha herança. Nesse mesmo ano a mãe de Fábio adoeceu, falecendo um tempo depois. Foi bom ela ter ido, pelo menos descansou. Os irmãos dele trabalham comigo na obra, sinto que devo ajudá-los de alguma forma, mas não consigo fazer muito.

Aos vinte e três fui pai. Não sabia se chorava de alegria ou de tristeza. João nasceu – a esperança não. Minhas lágrimas caíam por saber que talvez ele não tivesse leite para tomar, que poderia morrer a qualquer instante por uma bala perdida, que não teria brinquedos, nem uma doce infância, talvez nem esperança de uma vida melhor.

Minutos depois a TV anunciava a corrupção do senado, o desvio de verbas públicas, o capitalismo avassalador. Olhei para o céu, com João nos braços, com a sensação de impotência diante do mundo, aquela desesperança consumia-me dia a dia.

Que país é esse, em que a corrupção acelera a desigualdade, massacra os menos favorecidos e destrói milhares de vidas todos os dias? Até quando isso vai perdurar? Que país é esse em que sobreviver é uma luta diária, um desejo constante?

Sou anônimo, talvez por isso o sistema não me olhe. Ainda assim, continuo na luta, na labuta diária.

Imagem: Grupo OPNI

 

Feliz dia das crianças!

Autora: Maria Isabel Trivilin

pec.jpgUm dia de festança, de comemoração do ser que faz com que as pessoas tenham esperança na humanidade, hoje traz uma simbologia muito mais cruel e sem ursinhos de pelúcias felizes.

Poderia escrever sobre a doçura dos olhares de uma criança, a espontaneidade de seu sorriso e a ingenuidade de seu coração, tão cândido, sem todo o sórdido lodo que inunda a maioria dos cidadãos, mas estaria sendo injusta com seus próprios passos, com seus incertos e tristes futuros.

Não há pior presente para uma criança, no dia de hoje, que a aprovação da PEC 241. Elas conviverão, nos próximos vinte anos, com o congelamento das aplicações em saúde, educação, previdência e assistência social. Não terão uma infância tão doce como a minha, quiçá uma escola – mesmo que sucateada – como a minha. Estudarão em shoppings centers e se formarão em grandes indústrias com aulas de como ser um bom empreendedor – oprimindo alguém – e aulas de como organizar prateleiras em um hiper, super, megamercado – ser oprimido por alguém.

É triste ter que apagar, mesmo em um texto tão singelo, a cor de um dia que deveria ser tão belo. Mas sejamos realistas: as crianças de hoje, chorarão muito daqui vinte anos. Aqueles que se satisfazem com pirulitos e balas de gomas, amanhã sentirão a dor da aprovação de uma medida elitista e desonesta, no dia em que comemora-se a vida em sua melhor fase. Uma proposta de emenda à constituição que cessa os concursos públicos e limita os investimentos para as despesas primárias – que afetam diretamente a população e provocam um completo desmonte e sucateamento nos serviços públicos.

Em resumo, a educação, saúde e assistência social, nos próximos dez anos, perderão mais de trezentos bilhões de reais – simplórias moedas que farão com que a tragédia se alastre e a população sofra. O descaso dos governantes não é pouco: seus salários apenas aumentam, suas bolsas auxílios também, enquanto o pobre não terá direito nem às condições básicas de vida.

Lamento por vocês, crianças. Hoje se satisfazem com adornados presentes de seus pais, mas infelizmente essa alegria é muito passageira e digna somente de vocês, com almas tão puras e mentes que ainda não compreendem a desgraça que está sendo feita com suas vidas.

O brilho momentâneo nos olhares destas crianças, me fazem temer ainda mais. Elas não terão oportunidades como eu tive, nem saberão o que são pautas progressistas e crescerão sendo oprimidas com mais ferocidade. Não sei se quando crescerem, ainda terão o direito de protestar, ocupar e resistir. Espero que tenham, pois esse é o único caminho para emancipar os trabalhadores. Não quero ser pessimista e dizer que estamos caminhando a uma ditadura, realmente espero que isso não aconteça – ainda assim, temo por Temer, por querer privatizar nossa educação e criminalizar nosso movimento.

Não basta agora oferecer jujubas à criança, o mais triste presente já está sendo dado: a destruição de seu futuro, através dessas medidas, principalmente se ela for pobre, mulher, negra, LGBT, moradora de periferia. A estas, as palavras não cabem, não exprimem minha dor.

Por vocês, uma vida inteira de luta. Para as mães, pais, tios e todos que se dizem humanos, é isso que seus filhos, netos e afins terão na vida: menos saúde, educação e humanidade – quase zero. Mas acalmem-se, terão muitas indústrias para morreram de trabalhar; terão muitas escolas com mordaças que não os permitirão pensar; muitas matérias técnicas, sem Sociologia, Filosofia e Arte; terão uma vida toda de opressão pela frente. E isso, para enegrecer, é culpa de vocês que bateram panelas contra a “corrupção”, mas estão sentados diante das medidas que estão sendo implementadas.

A culpa do futuro dessas crianças, que com o aumento da desigualdade social, morrerão pelo capital, é de vocês! Elas morrerão de fome, como já morrem. Morrerão de fome por educação, saúde, por uma cesta básica que não receberão mais.

Estamos morrendo! A PEC da desigualdade e as reformas alienadoras ascendem. Há saída? Resistir, como sempre. Lutar para que um dia esse sistema mude e as pessoas sejam tratadas com igualdade.

Temer e sua corja oferecem a todos um lindo dia, junto ao fim da esperança, do sonho, do futuro e do simples direito de ser criança.

Do luto à luta: não reconheço governo golpista!

Autora: Maria Isabel Trivilin

CiQ7EgOUYAQB1XzHoje o tempo nublado caracteriza com clareza os sentimentos que pairam no país. Confesso que ainda tinha um pingo de esperança nessa nação perturbada, mas realmente, aos 18 anos de idade, no auge de minha jovem militância, estou presenciando um golpe.

Sinto algo ainda mais forte do que senti naquele dia em Brasília, quando o processo foi aprovado na Câmara dos Deputados. Ver trabalhadores chorando em frente ao Palácio do Planalto não passa perto do caos do momento. Feriram de vez a democracia, o voto de mais de cinquenta milhões de pessoas que foram às urnas no dia 5 de outubro de 2015 e elegeram democraticamente uma presidenta – aliás, a primeira mulher a presidir o idolatrado pau-brasil.

Constatamos um golpe de estado contra toda a classe trabalhadora, sofrida, que há 14 anos usufrui de políticas públicas que, incontestavelmente, transformaram, através de reformas populares, o curso forçado das águas mercantis, levando pão a mesa dos pobres, trazendo os negros e periféricos para as universidades e dando-os acesso à saúde e à uma vida mais digna. Hoje, esse ciclo 13+1 se encerra, com o pesar de inúmeros brasileiros que temiam por Temer, temiam por observar a democracia caminhando ao abismo juntamente com toda a nossa luta, sem que pudéssemos reagir à altura. Notando que, estamos novamente adentrando um período dominado por fascistas, machistas, racistas e tirânicos engravatados.

Tentaram, insistiram e conseguiram usurpar o digno direito de uma mulher governar a nação. Uma mulher que teve sua vida exposta, que foi torturada durante a ditadura militar e que não baixou a guarda – também não baixaremos. Apesar de todas as falhas de seu governo, que indico inúmeras críticas, nenhum ser ressentido, que não sabe lidar com as frustrações da perda ou com a decoração de sua posição tinha o direito de tirá-la de onde o povo a colocou. Pedaladas fiscais não são motivos para um impeachment e todos os imundos daquele tribunal sabem disso. Não tendo crime de responsabilidade, é golpe! É golpe de novo, meu povo!

Hoje a dor não é só por terem ferido a democracia, a constituição e o voto do povo suado das ruas brasileiras, mas por notar mais uma mulher sendo injustiçada, rebaixada, tendo todas as suas forças violadas por truculentos seres que não conseguem lidar com a ideia de que a população avança, que há pobre na universidade e na fila do pão; tiranos que não conseguem ver uma mulher empoderada, discursando um texto que ficará para a história, assim como toda a sua luta e garra; por homens que não conseguem ver a classe trabalhadora com direitos, que não enxergam as belezas que produzimos e não nos tratam com humanidade.

A dor está em cada pétala de rosa que caiu sobre o chão naquele 30 de abril, naquela chacina criada por um apoiador de Temer nas ruas do Paraná. A dor está naquela mata em que dois companheiros do MST foram mortos por estarem lutando pela terra. A dor está por Jadson José, estudante de negro e da periferia, que foi morto pela polícia militar. A dor está em saber que isso será cada vez mais comum e que agora terão caminho aberto para aniquilarem nossos sonhos, matarem nossas almas e venderem nossos espíritos. A dor está em saber que agora serei ainda mais produto, menos gente; ainda mais mercado, mais identificada por um código de barras inamovível e morto. Agora o caminho se alongou para aquela sociedade que eu tanto luto: mais humana, igualitária, sem 1% possuindo toda a riqueza dos 99%. Agora a luta de classes será brutal, companheiros. A classe oprimida terá que se unificar ou será morta de novo, como em 1964.

Minha tristeza é por todo trabalhador que hoje levanta a bandeira do golpe com glória, pela grande massa alienada que não faz ideia que a ponte resulta em um precipício. É triste ver jovens felizes com o que nos foi atribuído, fechando os olhos para a parcialidade que reina nos três poderes. Entretanto, meus olhos lacrimejados não neutralizam a força de minha luta, a lamentação não transformará a realidade. É preciso permutar o luto por luta. Agora ou perdemos a paciência ou perderemos a vida. A calmaria acabou, a lei da mordaça avança, juntamente com todas de natureza elitista e conservadora.

Declaro guerra aos golpistas! Enquanto houver um rico ceifando a vida de um pobre, enquanto uma classe minoritária possuir toda a riqueza de um povo, enquanto houver jovens morrendo pela política militar, uma mídia manipuladora, tentativas de mercantilizar o ensino e todas as nossas forças vitais, haverá luta, resistência e muitas percas de paciência.

É com pesar que encaro a morte da jovem democracia. Assim como o jovem Jadson José, ela foi morta pela polícia militar. Morta pela mídia golpista, por essa lógica elitista cruel e pelos fascistas que agora estão no poder. Eu não reconheço esse governo, ele não é legitimado pelo povo!

A juventude da classe trabalhadora resiste! Fora, Temer!!!